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Posted by : Felippe Alves segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

(Texto finalizado às 1:40. Isso com certeza quer dizer alguma coisa...)


Sacção cognitiva. Foi este o termo inventado por meu amigo Chubble para designar o evento ocorrido quando duas histórias completamente diferentes são capazes de se relacionar, e ser comparadas de tal maneira que uma torna possível a compreensão da outra. Disse a ele que já existiam diversos termos para designar tal evento, sendo ‘metáfora’ talvez o mais recorrente. Mas insistiu o nobre ser que ‘sacção cognitiva’ é agora um neológico termo formalizado, e que não muito em breve o veremos estampado em didáticos livros de português.
                E é fazendo uso de tal sacção, que vos falo do dilema que envolve todo jovem escritor. A tão pomposa e complexa dama chamada Reescrita.
                Ah, a Escrita! Tão bela e ingênua em seu primeiro brilhar! Não há magia maior do que a presente no brilho que existe entre as linhas que trespassam o nascimento daquela ideia... aquela ideia que esteve em sua mente por eras... formigando para ser inscrita em papel. Quando seu texto finalmente nasce, o orgulho paterno lhe enche da maneira mais teatral possível. A história lentamente parte ao mundo, e você sabe que parte sua partirá junto a ela nessa partida partidária.
                Mas não há como negar. Fazer com que um texto nasça é peculiarmente prazeroso. Mas fazê-lo voltar ao ventre pra nascer uma segunda vez é desgastante e enfadonho.
                “Gostei do seu texto, caro amigo que me pediu uma opinião sincera, mas talvez você deva melhorá-lo, acrescentando mais detalhes no parágrafo onde descreve as axilas da protagonista, e alterando o que acontece no final. Aquele lance da explosão não se encaixou muito bem, desculpe. Tente mudá-lo.” E é com um comentário desses que tudo se desmorona. Não bastaram os meses de gestação que você gastou numa história... lá vem um sábio leitor e opina dizendo que você deve reescrever...
                Ah, a Reescrita! Tão necessária, mas tão demoniacamente chata! Passar pelos locais onde já esteve, e dizer aos seus amigos verbos e substantivos que eles não estão exercendo seu papel com maestria, e precisam ser trocados por outros que exerçam a função de maneira melhor. Mesmo que o autor concorde que há falhas em suas linhas, ele nunca vai se render a ideia de que alterar suas palavras é tão divertido quanto escrevê-las pela primeira vez. A escrita lhe serve de aspiração... é romper seus limites e expressar sua voz. Já a Reescrita vem lhe aparar as arestas, adequando seu texto ao que “deveria ser” e tornando-o mais aceitável... E quem disse que devemos sempre nos render ao que é aceitável?
                E é nessa sacção que chegamos a Shelby. A terceira e meia garota por quem Chubble se apaixonou (o ‘meia’ é uma história para mais tarde). Nunca entendi quais os motivos que levaram meu sábio amigo a gostar dela, mas sei que no momento em que pôs seus não-sei-quantos olhos na garota, sentiu uma atração que ia além de mera paixão casual. Não sabia se era o que os humanos costumavam chamar de amor à primeira vista. Por isso, olhou para Shelby dezessete vezes antes de ter certeza.
                Talvez eu tenha esquecido de mencionar as circunstâncias em que ocorreu tal encontro. Há tempos minha irmã fez uma curta viagem ao Rio de Janeiro, para cuidar de negócios que envolviam raquetes e croissants de chocolate, e sem nem mesmo saber levou nosso oculto amigo dentro da bagagem. Ansioso por conhecer a chamada cidade maravilhosa, Chubble me relatou que a única coisa realmente maravilhosa que encontrou fora Shelby. A tão bela moça que encantava seus olhos, os quais apenas ele podia enxergar. Shelby era como ele... enigmática e admiradora de queijo gorgonzola.
                Por dias os dois aproveitaram a cidade, divertindo-se em piqueniques improvisados em esquinas do lado leste e em corridas durante a madrugada contra as gélidas correntes de ar que trespassavam um calçadão qualquer. A história de amor entre ambos floresceu como um rápido devaneio infantil. Tanto que, no dia em que minha irmã voltou para casa, não apenas Chubble voltou na bagagem, como Shelby adentrou nossa casa também.
                E um lar, onde uma criatura enigmática já habitava, duplamente estranho se tornou. Nossos olhos humanos não enxergavam Shelby, mas qualquer um era capaz de sentir o grande espaço que ela ocupava. Talvez fosse seu ego inflável, ou a mobília da qual não conseguia se livrar. Tudo o que sei é que, não bastava o quanto ela me incomodasse, não pude dizer “não” quando Chubble pediu que eu permitisse que ela se mudasse. Também não pude dizer “sim”, e foi por isso que acabei dizendo “Aceita sanduíche de mortadela?”.
                Por dias a relação entre o casal se manteve estável. Gostavam de jogar cruzadas e de recitar poemas às quatro e quinze da manhã. Cobiçavam comprar um cachorro e dissecá-lo para abstrair conhecimento biológico. Juntos, sonhavam cada vez mais alto...
                Chubble nunca poderá dizer que não foi avisado. Disse a ele para que não se entregasse completamente a paixão. Mas o ingênuo ser fatalmente fez de Shelby o centro de suas atenções. Não sei se a garota se sentiu pressionada pelo excesso de elogios e carinho, ou se possuía alguma séria alergia a mortadela. Tudo o que sei é que Shelby fracassou em sua missão, e após doze dias, nove horas e trinta e sete minutos, não pôde mais sustentar seu disfarce. A pérfida individua era uma fugitiva. Procurada por traficar porquinhos da índia canhotos a laboratórios clandestinos. Não sei se era ave ou mamífero, mas era com certeza um ser traiçoeiro. Esmagou os sentimentos do pobre Chubble, e deixou nossa casa levando todo o estoque de gorgonzola.
                E por dias meu pobre amigo desabou-se em decepção. Não apenas os potes de sorvete, mas até mesmo os potes de feijão foram devorados durante sua extrema melancolia acompanhada pela fome. Tratava-se da primeira grande desilusão amorosa do pequeno Chubble, visto que nenhuma das outras duas e meia garotas de seu passado o cativara de tal maneira.
                Nos primeiros dias, desejou não apenas a morte de Shelby, mas também que ela fosse torturada por babuínos impiedosos num método diabólico e opressor. Após o estágio raivoso, desejou que pudesse mudar seu passado. Que pudesse voltar no tempo, e reviver as últimas semanas. Que tivesse percebido que havia muitas outras coisas maravilhosas no Rio além da enigmática Shelby (dizem, por exemplo, que há uma lata de lixo na esquina de uma das avenidas que é de uma simetria perfeita). Que não tivesse depositado toda a sua eufórica paixão em tão pouco tempo numa garota. Que tivesse agido de outra maneira...
Chubble queria reescrever o ocorrido.
Foram necessários alguns dias serenos e um pouco de chá de seticina para que meu nobre amigo entendesse que aquilo não era o fim. Ou talvez fosse, mas que todo fim nos abre uma porta para um novo começo. Nem tudo o que escrevemos ao longo da vida nos agrada, mas nem por isso podemos voltar e refazer nossas tolas ações. Erros não foram feitos para serem consertados, e sim para prevenir os outros erros do futuro.
A história de Shelby não é apenas ruim. É um lixo. É chata, enfadonha, e não deveria ser contada a ninguém... Mas nem por isso Chubble deve rejeitá-la. Afinal, qual mesmo a graça da vida se não tivermos algumas desilusões? Do mesmo modo que os textos de um escritor nunca de destacarão se não houver alguns textos ruins vez ou outra. Reescrever é para os tolos... os sábios deixam sua marca no texto de baixa qualidade, e dão um passo para o próximo volume, no qual sabiamente tentarão se superar.
A intenção de tal texto não é contar uma história. É falar sobre a Reescrita, essa tal jovem que tanto me atormenta. E para tal faço uso da sacção cognitiva, mostrando que até mesmo Chubble sabe que reescrever um texto é como lembrar-se de uma ex-namorada. Vocês podem até voltar a se dar bem, mas nada nunca será como da primeira vez.
Afinal, textos ruins são como desilusões amorosas... por mais que você queira esquecê-los, apagá-los ou consertá-los, você sabe que tais refletem parte de sua essência. São parte importante de seu passado. Retratam dias em que você agiu de maneira estúpida, mas que ainda assim agiu como bem queria. E talvez, por isso, você não deva tentar consertá-los...
Não sei nem se eu mesmo entendi o que quis dizer com esse texto. Seres humanos tem certa dificuldade pra entender certas metáforas... ou melhor... sacções cognitivas. Mas se os humanos não compreendem, talvez para os pequenos porquinhos da índia escritores faça algum sentido.
Nem sei se eu estava falando da Reescrita realmente. Talvez fosse um modo que encontrei de falar sobre outra coisa. E talvez Shelby não fosse traficante de verdade... Talvez... esse texto tenha ficado um tanto confuso... ou talvez confuso demais... Talvez eu não devesse tê-lo escrito...
Ou talvez... eu deva Reescrevê-lo...

{ 2 comentários... read them below or Comment }

  1. Sensacional! Vou descobrir onde a Shelby mora e dar na cara dela kkkkkkkkkkkk... onde já se viu fugir com o estoque de gorgonzola dos outros?? Brilhante, Barbossa...

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  2. Adorei! Você não deve reescrevê-lo, rsrsrsrs. Perfeito.

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