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Archive for Dezembro 2013

“Safires entrou no quarto raivosamente, com os saltos apertados batendo com força, e os pés espremidos contraindo-se de forma dolorosa. Fechou a porta de forma brusca, e passou a tranca pelo fecho de madeira. A torre estava mais gélida do que de costume, mas a lareira mantida acesa por uma de suas aias permitia que o ar frio se tornasse aos poucos morno e aconchegante. Não se deu ao trabalho de retirar suas vestes. Apenas jogou os sapatos para longe e deixou que seu corpo caísse em meio aos lençóis de seda que envolviam a cama macia. Todo o peso que carregava diariamente sobre seus ombros a deixava exausta. A vida de uma princesa podia ser uma tarefa árdua... no Reino de Gargantilha então, uma tarefa quase impossível...
Cexto 3B adentrou o quarto com o rosto coberto de fuligem. As portas deslizantes fecharam-se as suas costas e ele acionou o interruptor lateral, para que a luz vermelha do lado de fora indicasse que não deveria ser incomodado. Aproximou-se do vaporizador ao canto do cômodo e pressionou a opção de lavagem facial rápida. Um leve esguicho atingiu seu rosto, retirando quase que toda a fuligem. Secou sua pele com a toalha de rosto e despiu os calçados e a camisa. O clima lá fora estava escaldante, mas o refrigerador permitia que o interior do quarto fosse levemente refrescado. Desligou o comunicador e o colocou sobre a cabeceira, para que nenhum dos estrategistas pudesse lhe contatar. Deitou-se sobre a cama e nem deu-se ao trabalho de acionar o filtro de sonhos digital. Permitiu que sua mente evanescesse aos poucos, permitindo por um momento livrar-se da árdua tarefa de comandante do Condado 19.
Os olhos da princesa estavam quase se fechando quando um ruído peculiar chamou sua atenção. Levantou-se com rapidez e fitou o cômodo a sua volta. As tochas e velas acesas ainda brilhavam com força. Contudo, uma sombra curiosa remoía-se no canto a noroeste. Era como se houvesse uma espécie de fenda... algo obscuro e misterioso... escondido entre o papel de parede e as pedras frias que ladeavam o piso da torre.
O oficial ergueu-se num solavanco e sacou a arma com rapidez. A reação de erguer o pequeno atirador de mísseis a qualquer mínimo som inesperado já havia se tornado involuntária. Passou os olhos pelo dormitório e fitou um ponto específico. Próxima a saída de ar, uma pequena rachadura se abria nos azulejos de metal... provavelmente falhas do trabalho dos estúpidos engenheiros robóticos.
Safires caminhou com pontapés, sendo tomada pela curiosidade... Aproximou-se da fenda misteriosa e se curvou sobre a parede.
Cexto 3B manteve a arma em suas mãos, indeciso entre chamar ou não a segurança. A tão ingênua rachadura poderia facilmente ser utilizada para envenená-lo com gases tóxicos enquanto dormia. Contudo, algo aquietou sua mente, e o convenceu a se aproximar da singela fenda.
Por vários minutos, a princesa apenas analisou o orifício. Uma gélida sensação transbordava de seu interior... Incerta do que fazia, por motivo ainda mais incerto, murmurou para o nada:
- Olá?
O comandante deu um salto involuntário para trás. Teria mesmo ele ouvido aquilo? Uma voz... a voz de uma... mulher? Vinda da rachadura? Segundos gélidos se arrastaram no interior do cômodo, nos quais Cexto 3B ponderou a possibilidade de que gases alucinógenos estivessem sendo lançados pela fenda.
A princesa bufou com tédio, sem entender por que raios estava cumprimentando uma estúpida parede. O ar gélido da torre devia estar perturbando seus sentidos.
Foi então que, como num ato involuntário, Cexto 3B impôs a voz:
- Olá?
Os olhos esverdeados de Safires se arregalaram ao ouvir aquela voz. O grave timbre de um homem desconhecido. Qualquer nobre sensato haveria chamado por socorro. Ouvir vozes não era algo a ser ignorado. Sabe-se lá que maldição podia ter sido lançada em seus aposentos reais. Mas, por algum motivo, a sábia princesa não temeu a resposta. Franziu os lábios por breves segundos e em seguida indagou:
- Qual é seu nome?
O comandante engoliu em seco antes de responder. Estaria alguma garota se comunicando por alguma tecnologia de ondas sonoras? Não era sensato dialogar com fendas entre os azulejos do dormitório, mas, ainda assim, ele o fez.
- Comandante Cexto 3B, Estrategista-Mór do Condado 19, federado pela União Intergaláctica. Com quem faço contato? Câmbio.
- Princesa Safires Danovilha de Lahonvet, filha de Hermes. Herdeira do trono de Lahonvet IV, que a Luz o tenha, e futura rainha de Gargantilha. Encantada.
- Uma... princesa? Ainda há planetas que aderem a governos monárquicos? Câmbio.
- Como é?... Planetas?... De onde és tu exatamente, bravo senhor? Conheço meu reino como ninguém, e não me recordo de ouvir sobre o Condado 19.
- Receio que nossos lares não sejam tão próximos, Princesa. Também nunca ouvi falar do Reino de Gargantilha. Câmbio.
- Por que raios fica dizendo “Câmbio” ao final de cada frase?
- Perdão, Princesa. Apenas supus que essa tal tecnologia de comunicação que está utilizando se adequasse a esse código de linguagem.
- Tecno... o quê? Eu não estou usando nada pra me comunicar com você! Sua voz apareceu como mágica em meu quarto. Isso só pode ser façanha dos gnomos domésticos. Minha aia insiste há meses que há algumas dessas pestes escondidas entre as paredes de minha torre. Os bardos dizem que eles realizam truques impressionantes.
- Gnomos? Que tipo de lugar é esse onde vive? Tem certeza de que está realmente lúcida? Parece estar tendo devaneios...
- Está me chamando de louca? Era só o que me faltava. Ouvir insultos de minha própria parede... Já não basta minha mãe me importunando todos os dias por ter recusado o pedido de casamento do príncipe Edífopo...
- Me desculpe, Princesa, não tive a intenção...
- Não se preocupe. Estou mesmo um tanto exaltada. Contrariada por viver num reino de costumes tão caóticos. Dizem que há outros reinos que são bravamente governados por Rainhas. Às vezes me imagino como essas damas, sentada ao trono sem a necessidade de um marido. Mas para minha mãe, tudo isso é um absurdo! Edífopo já deve ser o quinto nobre com quem ela tenta me juntar...
- Mas o quê? Esse tipo de pensamento é... arcaico. Casamentos arranjados... Afinal, a melhor parte de um casamento não está na conquista? No florescer de um romance, no início de uma brava aventura a dois... Eu mesmo por anos flertei com minha amada Mira 23. Ela era uma mulher forte e orgulhosa, sempre centrada em liderar nossas tropas. Mas com muito esforço, eu finalmente... a tive em meus braços... mesmo que por pouco tempo...
- O que... o que aconteceu...?
- Perdão, não vem ao caso falar sobre isso. Basta saber que nosso país se encontra em guerra. E com a guerra, perdemos pessoas... Mas isso são fatos da vida com os quais temos que lidar...
- Sinto muito pela sua perda. Eu sei como é isso. Perder alguém... Meu pai se foi há alguns anos. Ele sim era um líder compreensivo. Ouvia-me e apoiava minhas decisões bem mais do que minha mãe. Ainda me lembro do dia em que recebi a notícia de sua morte. Um lacaio, vindo a cavalo, com uma carta escrita pelo líder da Guarda Real... nos trazendo péssimas palavras...
- Não há momento pior do que esse, não é mesmo? O quebrar das desilusões... Por um momento tudo está bem, e então alguém nos interrompe com uma péssima notícia. Ainda hoje, sempre que vejo a nave das tropas femininas aterrissando em nossa base, confesso que por breves segundos acredito que a verei saindo junto às outras estrategistas, com seu tão orgulhoso sorriso.
Safires sorriu, emotiva. Os sentimentos emitidos pela voz do comandante pareciam lhe tocar profundamente. Feliz em ter finalmente alguém com quem desabafar, contou-lhe sobre seus desejos e anseios. Falou dos problemas que enfrentava em seu governo, das ameaças lançadas pela maligna Feiticeira do Norte, da festa primaveril dos camponeses que se aproximava, e até mesmo da epidemia recém contraída pelos bobos da corte do reino.
Cexto 3B ouvia com atenção a todas as histórias que lhe eram contadas através da rachadura entre o metal. Um tanto receoso por se abrir com uma mulher após tantos anos, foi pouco a pouco contando um pouco sobre a rotina costumeira. O treinamento das tropas, as rondas em aeroplanadores, e as constantes batalhas de mísseis trocadas entre os condados rivais.
A princesa se admirava com tudo, e soltava ofegos maravilhados a cada aventura que ouvia do comandante.
O estrategista também se empolgava com os relatos da bela dama, imaginando como poderia existir um reino tão mágico e aparentemente tão utópico.
Safires logo foi chamada por uma de suas aias para se aprontar. Tinha que se arrumar para participar do banquete com Lorde Fray. Ela se despediu do mais novo amigo, certa de que conversariam mais no dia seguinte.
Cexto 3B se despediu com pesar, e passou o restante da noite apenas pensando na voz da donzela.
Naquela mesma noite, durante a madrugada, quando finalmente estava a sós, a princesa voltou a se curvar sobre a fenda na parede e chamou pela voz do comandante.
Ele se alegrou ao ouvir o singelo timbre e respondeu-a de imediato.
Conversaram durante horas, sobre os mais variados temas... sobre os mais variados assuntos...
E as horas viraram dias...
E os dias viraram semanas....
Que viraram meses...
Não se sabe se o tempo passava da mesma maneira para os dois.
Às vezes Safires comentava que já era noite, enquanto para Cexto 3B o sol ainda raiava com força.
A princesa lhe falava sobre a beleza das flores da primavera, enquanto o comandante desconhecia até mesmo o que eram as chamadas “estações”.
E por meses histórias e relatos foram trocados entre as paredes, tanto do Reino de Gargantilha, quanto do Condado 19.
Foi numa tarde para Safires, e para Cexto 3B numa manhã, que a princesa disse com sua voz singela:
- Tenho que te dizer uma coisa. Eu contei a alguém sobre nós...
- Como é?
- Me desculpe, não tive a intenção... Mas estava falando com o mago conselheiro. Ele é um homem bom e sábio, e poderia nos esclarecer como é que isso está acontecendo...
- Ora, princesa... Isso realmente importa? Saber como é que podemos nos falar mesmo estando em universos diferentes... isso importa? Desde que eu possa continuar a ouvir sua voz todos os dias... dou-me por satisfeito.
- Eu também, comandante. Tens sido para mim uma companhia insubstituível. Mas... estou preocupada... O mago me disse que tu não és real. De que essas conversas podem ser efeito de algum cogumelo alucinógeno que eu tenha ingerido em meus banquetes reais. Para ele... você não passa de fruto da minha imaginação.
- Princesa, já que está sendo honesta comigo... Farei o mesmo com você... Conversei com um psiquiatra. Ele também acredita que a senhorita não passa de um devaneio de minha mente...
- E se eles estiverem certos? E se estivermos apenas... imaginando tudo isso?
- Bom, se um de nós estiver imaginando... quer dizer que o outro não existe...
- Será...? Será que um de nós dois... não passa de invenção da mente do outro?
- Bom, é a única explicação plausível...
- Mas então... qual de nós dois está imaginando essa conversa? E qual de nós dois não existe de verdade?
- Bom, eu não sei... e sinceramente, não sei se... quero descobrir...
- Estou com medo, Cexto... isso significa... que um de nós não é real... um de nós não existe... e o outro está louco...
- Talvez não devamos pensar nisso...
- Tem razão...
- Olá?
- O quê?
- Disse algo?
- Quem são vocês?...
- Quem está dizendo isso?
- Há mais alguém nos ouvindo?...
- Sim, sou... Eu...
E foi então que Eu percebi, doutora. Que não era Safires quem imaginava Cexto 3B. E nem mesmo Cexto 3B quem imaginava Safires. Era Eu quem imaginava os dois! Ambos eram frutos de minha mente!
Dra. Érica sorriu de soslaio e murmurou:
- Não há mesmo limite para sua criatividade, garoto... Confesso, achei a história fascinante...
- Nunca mais voltei a ouvir a voz de nenhum dos dois, mas acredito que estejam bem. Gargantilha é um reino próspero, e o Condado 19 está cada vez mais perto de conquistar a paz. Cexto 3B passa seus dias contando para os colegas as belas histórias de um reino mágico distante, enquanto Safires conta a seus súditos relatos de missões emocionantes de um aventureiro espacial. Nenhum deles sabe se as conversas entre a parede eram reais ou não... mas eles levam essas histórias aos outros todos os dias, fazendo-as assim realidade...
- Como é?... – suas sobrancelhas se juntaram de forma confusa – Você me diz como se... realmente... acreditasse... Está se sentindo bem, meu querido?
- Bem como nunca, Doutora. Bem pelos dois. Acho que eles estão felizes...
- Sabe que não passa de uma história, não é mesmo? Uma história criada por sua mente incrível... mas ainda assim... uma história...
O paciente sorriu por breves segundos, e em seguida perguntou.
- Doutora, apenas... me responda uma coisa... Quem é Safires?
Ela bufou de forma impaciente, mas ainda assim respondeu:
- Uma princesa de um reino inexistente.
- Certo... e quem é Cexto 3B?
- Um militar de uma realidade futurista...
- Engraçado, não é mesmo? Há poucos minutos você não fazia ideia da existência de nenhum deles... mas agora sabe quem são... Doutora, se prestou bem atenção, deve ter percebido que nenhum dos dois personagens existia no começo...
- Como é?...
- Bom, não há como existir uma princesa medieval e um estrategista intergaláctico simultaneamente. Safires só passou a existir no momento em que Cexto 3B ouviu sua voz. Assim como o comandante só existiu de fato quando a princesa passou a escutá-lo. Um acreditou na existência do outro... e só assim existiram de fato...
- O que está querendo dizer com...?
- Primeiramente, os dois personagens só existiam um para o outro. Depois, passaram a existir para mim. E agora... também existem para a senhora... Até que... a senhora conte a história pra mais alguém... e eles passem a existir para outra pessoa... Sim, eu os inventei. Mas a cada vez que alguém os conhece, eles se tornam mais reais. Esse é o trabalho de um escritor.”
- Ele disse mesmo isso, Doutora? – indagou a secretária interessada na história.
- Sim, o pobrezinho estava completamente perturbado... misturando fantasia com realidade... Mas devo admitir, a história dele até que era interessante...
- Sim, confesso que gostei. – ela assentiu. Terminou de organizar os papéis sobre a escrivaninha e desligou o computador, para que pudessem fechar o consultório.
Doutora Érica e a secretária saíram pela porta e a trancaram em seguida, caminhando até o estacionamento. Antes que a psicóloga entrasse em seu carro, a secretária indagou:
- Mas Doutora, só por curiosidade... a senhora não me disse... quem era este paciente? Qual era seu nome?
- Acredito que Carlos era o seu nome... Tivemos poucas consultas até hoje.
- Carlos? Doutora, eu nunca agendei nenhum paciente chamado Carlos para a senhora... está certa que era esse mesmo o nome?
- Não, ele não veio até o meu consultório. Nem cheguei a vê-lo na verdade. Apenas ouvi sua voz... Foi uma consulta incomum...
- Ah... então, foi uma consulta por... telefone?
- Não por telefone, minha cara Samanta... Havia uma fenda... uma espécie de rachadura... na parede do canto do meu consultório... e foi de lá que ouvi sua voz... já faz dias que conversamos... e ele me conta histórias dos mais variados tipos...
- Doutora, está falando mesmo sério?
- Alguma vez me viu brincando com uma coisa dessas?
- Não, mas é que... Doutora, esse garoto não existe...
- Samanta, me responda uma coisa... quem é Carlos?
A secretária hesitou, mas ainda assim respondeu:
- Um tal paciente imaginário com quem a senhora conversa.
Doutora Érica soltou uma última risada antes de entrar no carro e fechar a porta:
- Exatamente. Há alguns minutos você não sabia quem ele era... Mas agora sabe. E ainda insiste em me dizer que ele não existe?



Me responda uma coisa... Quem é Érica?

(Texto finalizado às 1:40. Isso com certeza quer dizer alguma coisa...)


Sacção cognitiva. Foi este o termo inventado por meu amigo Chubble para designar o evento ocorrido quando duas histórias completamente diferentes são capazes de se relacionar, e ser comparadas de tal maneira que uma torna possível a compreensão da outra. Disse a ele que já existiam diversos termos para designar tal evento, sendo ‘metáfora’ talvez o mais recorrente. Mas insistiu o nobre ser que ‘sacção cognitiva’ é agora um neológico termo formalizado, e que não muito em breve o veremos estampado em didáticos livros de português.
                E é fazendo uso de tal sacção, que vos falo do dilema que envolve todo jovem escritor. A tão pomposa e complexa dama chamada Reescrita.
                Ah, a Escrita! Tão bela e ingênua em seu primeiro brilhar! Não há magia maior do que a presente no brilho que existe entre as linhas que trespassam o nascimento daquela ideia... aquela ideia que esteve em sua mente por eras... formigando para ser inscrita em papel. Quando seu texto finalmente nasce, o orgulho paterno lhe enche da maneira mais teatral possível. A história lentamente parte ao mundo, e você sabe que parte sua partirá junto a ela nessa partida partidária.
                Mas não há como negar. Fazer com que um texto nasça é peculiarmente prazeroso. Mas fazê-lo voltar ao ventre pra nascer uma segunda vez é desgastante e enfadonho.
                “Gostei do seu texto, caro amigo que me pediu uma opinião sincera, mas talvez você deva melhorá-lo, acrescentando mais detalhes no parágrafo onde descreve as axilas da protagonista, e alterando o que acontece no final. Aquele lance da explosão não se encaixou muito bem, desculpe. Tente mudá-lo.” E é com um comentário desses que tudo se desmorona. Não bastaram os meses de gestação que você gastou numa história... lá vem um sábio leitor e opina dizendo que você deve reescrever...
                Ah, a Reescrita! Tão necessária, mas tão demoniacamente chata! Passar pelos locais onde já esteve, e dizer aos seus amigos verbos e substantivos que eles não estão exercendo seu papel com maestria, e precisam ser trocados por outros que exerçam a função de maneira melhor. Mesmo que o autor concorde que há falhas em suas linhas, ele nunca vai se render a ideia de que alterar suas palavras é tão divertido quanto escrevê-las pela primeira vez. A escrita lhe serve de aspiração... é romper seus limites e expressar sua voz. Já a Reescrita vem lhe aparar as arestas, adequando seu texto ao que “deveria ser” e tornando-o mais aceitável... E quem disse que devemos sempre nos render ao que é aceitável?
                E é nessa sacção que chegamos a Shelby. A terceira e meia garota por quem Chubble se apaixonou (o ‘meia’ é uma história para mais tarde). Nunca entendi quais os motivos que levaram meu sábio amigo a gostar dela, mas sei que no momento em que pôs seus não-sei-quantos olhos na garota, sentiu uma atração que ia além de mera paixão casual. Não sabia se era o que os humanos costumavam chamar de amor à primeira vista. Por isso, olhou para Shelby dezessete vezes antes de ter certeza.
                Talvez eu tenha esquecido de mencionar as circunstâncias em que ocorreu tal encontro. Há tempos minha irmã fez uma curta viagem ao Rio de Janeiro, para cuidar de negócios que envolviam raquetes e croissants de chocolate, e sem nem mesmo saber levou nosso oculto amigo dentro da bagagem. Ansioso por conhecer a chamada cidade maravilhosa, Chubble me relatou que a única coisa realmente maravilhosa que encontrou fora Shelby. A tão bela moça que encantava seus olhos, os quais apenas ele podia enxergar. Shelby era como ele... enigmática e admiradora de queijo gorgonzola.
                Por dias os dois aproveitaram a cidade, divertindo-se em piqueniques improvisados em esquinas do lado leste e em corridas durante a madrugada contra as gélidas correntes de ar que trespassavam um calçadão qualquer. A história de amor entre ambos floresceu como um rápido devaneio infantil. Tanto que, no dia em que minha irmã voltou para casa, não apenas Chubble voltou na bagagem, como Shelby adentrou nossa casa também.
                E um lar, onde uma criatura enigmática já habitava, duplamente estranho se tornou. Nossos olhos humanos não enxergavam Shelby, mas qualquer um era capaz de sentir o grande espaço que ela ocupava. Talvez fosse seu ego inflável, ou a mobília da qual não conseguia se livrar. Tudo o que sei é que, não bastava o quanto ela me incomodasse, não pude dizer “não” quando Chubble pediu que eu permitisse que ela se mudasse. Também não pude dizer “sim”, e foi por isso que acabei dizendo “Aceita sanduíche de mortadela?”.
                Por dias a relação entre o casal se manteve estável. Gostavam de jogar cruzadas e de recitar poemas às quatro e quinze da manhã. Cobiçavam comprar um cachorro e dissecá-lo para abstrair conhecimento biológico. Juntos, sonhavam cada vez mais alto...
                Chubble nunca poderá dizer que não foi avisado. Disse a ele para que não se entregasse completamente a paixão. Mas o ingênuo ser fatalmente fez de Shelby o centro de suas atenções. Não sei se a garota se sentiu pressionada pelo excesso de elogios e carinho, ou se possuía alguma séria alergia a mortadela. Tudo o que sei é que Shelby fracassou em sua missão, e após doze dias, nove horas e trinta e sete minutos, não pôde mais sustentar seu disfarce. A pérfida individua era uma fugitiva. Procurada por traficar porquinhos da índia canhotos a laboratórios clandestinos. Não sei se era ave ou mamífero, mas era com certeza um ser traiçoeiro. Esmagou os sentimentos do pobre Chubble, e deixou nossa casa levando todo o estoque de gorgonzola.
                E por dias meu pobre amigo desabou-se em decepção. Não apenas os potes de sorvete, mas até mesmo os potes de feijão foram devorados durante sua extrema melancolia acompanhada pela fome. Tratava-se da primeira grande desilusão amorosa do pequeno Chubble, visto que nenhuma das outras duas e meia garotas de seu passado o cativara de tal maneira.
                Nos primeiros dias, desejou não apenas a morte de Shelby, mas também que ela fosse torturada por babuínos impiedosos num método diabólico e opressor. Após o estágio raivoso, desejou que pudesse mudar seu passado. Que pudesse voltar no tempo, e reviver as últimas semanas. Que tivesse percebido que havia muitas outras coisas maravilhosas no Rio além da enigmática Shelby (dizem, por exemplo, que há uma lata de lixo na esquina de uma das avenidas que é de uma simetria perfeita). Que não tivesse depositado toda a sua eufórica paixão em tão pouco tempo numa garota. Que tivesse agido de outra maneira...
Chubble queria reescrever o ocorrido.
Foram necessários alguns dias serenos e um pouco de chá de seticina para que meu nobre amigo entendesse que aquilo não era o fim. Ou talvez fosse, mas que todo fim nos abre uma porta para um novo começo. Nem tudo o que escrevemos ao longo da vida nos agrada, mas nem por isso podemos voltar e refazer nossas tolas ações. Erros não foram feitos para serem consertados, e sim para prevenir os outros erros do futuro.
A história de Shelby não é apenas ruim. É um lixo. É chata, enfadonha, e não deveria ser contada a ninguém... Mas nem por isso Chubble deve rejeitá-la. Afinal, qual mesmo a graça da vida se não tivermos algumas desilusões? Do mesmo modo que os textos de um escritor nunca de destacarão se não houver alguns textos ruins vez ou outra. Reescrever é para os tolos... os sábios deixam sua marca no texto de baixa qualidade, e dão um passo para o próximo volume, no qual sabiamente tentarão se superar.
A intenção de tal texto não é contar uma história. É falar sobre a Reescrita, essa tal jovem que tanto me atormenta. E para tal faço uso da sacção cognitiva, mostrando que até mesmo Chubble sabe que reescrever um texto é como lembrar-se de uma ex-namorada. Vocês podem até voltar a se dar bem, mas nada nunca será como da primeira vez.
Afinal, textos ruins são como desilusões amorosas... por mais que você queira esquecê-los, apagá-los ou consertá-los, você sabe que tais refletem parte de sua essência. São parte importante de seu passado. Retratam dias em que você agiu de maneira estúpida, mas que ainda assim agiu como bem queria. E talvez, por isso, você não deva tentar consertá-los...
Não sei nem se eu mesmo entendi o que quis dizer com esse texto. Seres humanos tem certa dificuldade pra entender certas metáforas... ou melhor... sacções cognitivas. Mas se os humanos não compreendem, talvez para os pequenos porquinhos da índia escritores faça algum sentido.
Nem sei se eu estava falando da Reescrita realmente. Talvez fosse um modo que encontrei de falar sobre outra coisa. E talvez Shelby não fosse traficante de verdade... Talvez... esse texto tenha ficado um tanto confuso... ou talvez confuso demais... Talvez eu não devesse tê-lo escrito...
Ou talvez... eu deva Reescrevê-lo...

Reescrita: O eterno dilema de Shelby

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