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Posted by : Felippe Alves sábado, 20 de julho de 2013

        Conta-se que há muitos anos atrás (ou talvez à frente) existiu um reino mágico onde mortais e paçocas viviam em perfeita harmonia. Numa terra onde flores desabrochavam em açúcar e nuvens se desfaziam em saborosos melaços, tais simpáticas guloseimas de amendoim transmitiam seus conhecimentos aos humanos, os ensinando a viver de forma doce e entusiástica. Crianças e mini paçocas cantavam cantigas de roda e corriam sob raios ensolarados todos os dias, acreditando que a vida era um misto incontável de açúcar e felicidade.
Nem mesmo a “idealidade” de Platão esboçaria uma sociedade tão perfeita.
            Mas foi então que o Rei Amargus XV contra tal se rebelou. Acreditou que as paçocas desviavam a atenção dos humanos de tarefas produtivas, levando-os a um caminho dominado pela criatividade nada lucrativa.
Num temível acesso de fúria, o rei decretou uma nova lei. Paçocas haviam se tornado ilegais. A mera existência de tais guloseimas amendoadas tornou-se expressamente proibida. Os soldados do monarca devastaram suas terras, expulsando não apenas as paçocas, mas qualquer mero vestígio da herege arte açucarada.
Amargus ordenou que a única expressão artística legalmente permitida fossem representações de sua própria face em bustos de pedra. Estátuas em sua homenagem foram esculpidas por todos os cantos, ao passo em que muros foram erguidos nos limites do reino para impedir que qualquer paçoca rebelde ousasse tentar sorrateiramente ultrapassar a fronteira.
Nem mesmo a “insensibilidade” de Maquiavel suportaria tal governo como forma de política.
            Professores foram encomendados via Sedex, aplicados em cursos nos quais ensinariam os súditos a direcionar todas as suas atividades diárias em direção a fins lucrativos. A preocupação com a produtividade de seu próprio tempo tornou-se parte do cotidiano de plebeus e palhaços. E por décadas, nenhuma outra paçoca foi encontrada.
Anos se passaram, até que um grupo de seis jovens gnomos resolveu explorar os limites do reino. Guiados por rumores trazidos pelos ventos, que sussurravam lendas antigas sobre seres adocicados que um dia haviam habitado aquelas terras.
Nem mesmo a “aventuracidade” de Tolkien entenderia o anseio em descobrir o além do feudo.
            Foi numa noite de três luas que os sonhadores indivíduos encontraram um segredo que há tempos ansiava por ser revelado. Uma trilha, sinuosa e discreta, que se arrastava para além das fronteiras. Os gnomos se espantaram ao notar que a trilha era feita de nada menos do que paçocas. Sim... singelos pedaços cilíndricos de doce amontoados linearmente, que levavam a algum destino inimaginável.
Nem mesmo a “misteriosidade” de Conan Doyle entenderia a atratividade do mistério a ser revelado.
            Aguçados, os gnomos seguiram a trilha, em rápidos passos, antes que a Guarda Real os impedisse de instigar o desconhecido.
Nem mesmo a “fertilidade” de C.S. Lewis poderia imaginar a felicidade de tais seres ao alcançar seu destino.
            Uma pacata vila encantada, onde as linhagens de paçocas sobreviventes refugiavam-se em perfeita harmonia. Viviam em segredo, num esforço incansável de preservar a doçura que tanto lhes fora reprimida. Fascinados, os gnomos se uniram a suas sinfonias, divertindo-se por dias e noites, nos quais declamavam açúcar e comiam poesia.
            Não tardou, contudo, que os plebeus do reino notassem o sumiço dos seis pequenos seres. Aguçados pela curiosidade, pouco a pouco os cidadãos partiram em busca do paradeiro dos gnomos. À medida que encontravam a trilha de paçocas e alcançavam a pacata vila, encantavam-se de tal maneira que não voltavam jamais. A população do reino aos poucos transbordava em direção ao povoado.
            Nem mesmo a “raivosidade” de George Martin seria capaz de compreender o sentimento que dominou Amargus no momento em que notou que seus súditos cada vez mais o abandonavam.
            Ao descobrir sobre o refúgio açucarado, o poderoso monarca ordenou que seu exército marchasse em direção a vila e exterminasse definitivamente todas as paçocas. Contudo, suas palavras ecoaram pelo salão deserto. Colocou seus óculos para que pudesse enxergar melhor e constatou a dura verdade.
Não havia mais exército. Não havia mais soldados. Todos haviam fugido. Cercado por suas estátuas e bustos de mármore, mergulhado em sua miopia, o monarca nem percebera como lentamente terminara em repleta solidão. Seu reino agora nada mais era do que terras inabitadas, enquanto a população da vila das paçocas crescia estrondosamente.
            O reino tornou-se nada, e o nada tornou-se reino.
            Foi em seu auge momentâneo que, num lampejo amendoado, a terra das paçocas desapareceu. O reino se escondeu por trás de nuvens de algodão doce e nunca mais foi encontrado por ninguém.
            Desamparado, Amargus vagou por anos em repleta solidão. Mesmo quando, por acidente, encontrou a trilha secreta, não pôde enxergá-la. Sua mente era tão desprovida de açúcar que, ao olhar para as cilíndricas guloseimas, tudo que enxergava eram pequeninos tocos de madeira.
Sem nada a se apegar que não sua mente sem inventividade, o monarca vagou por terras longínquas, onde encontrou novos súditos e deu início a uma nova civilização rumo ao desenvolvimento (dessa vez, sem paçocas para lhe perturbar). Uma civilização sem criatividade da qual, contudo, fazemos parte.
            Dizem por aí que a trilha das paçocas ainda existe, mas apenas pode ser encontrada por indivíduos de mente adocicada. Num mundo onde açúcar não mais se declama, e poesia não mais se come, cada vez mais o reino das paçocas se distancia.
            Mas rumores sussurram que, vez ou outra, jovens de mentes diferenciadas desaparecem sem explicação. E quando voltam (se é que voltam) relatam histórias sobre um reino onde tudo é doce, e onde a felicidade se colhe em árvores de amendoim.
Nem mesmo a “insanidade” de Lewis Carrol poderia negar que tais rumores parecem utópicos e ilógicos por demais.
            Mas creio que ainda existem gnomos cansados de admirar os bustos de pedra de seus reis, que buscam por um mundo novo, repleto de magia. Seres pequeninos que entendem que o mundo onde vivem não pode permanecer em amargurada ignorância.
Afinal...
Nem mesmo a “adocidade” de uma paçoca arriscaria viver num mundo onde a mente é tão diabética.

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