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Tua mãe diz que seus olhos são belos por terem sido herdados de sua avó. Sua avó afirma que a beleza deles é herdada de um tio distante. Seu irmão acredita que seus olhos se embelezam de acordo com as vestes que usa. Sua irmã já pensa que os dela são mais belos que os seus. Seu namorado afirma que a magia deles é revelada quando seus sentimentos se afloram. Seu ex já acredita que é no desabrochar que eles ficam mais atraentes. Seu oculista lhe diz que a cor deles se destaca por trás das lentes. Geneticistas afirmam que tudo não passa de um gene recessivo. Os artistas acreditam que seus olhos refletem a beleza de sua alma. Os filósofos se perguntam se por trás deles não se esconde uma dialética ainda maior. Palhaços me dizem que suas pupilas se dilatam quando ri constantemente. Mixólogos me convencem de que tal olhar não passa de uma tática de sedução. Minha mãe me disse que seus olhos combinam com os meus. Meu cachorro apenas os observa, porque não aprendeu a falar. Já eu, desconsidero todas as afirmações de tolos que não te conhecem realmente. A magia não está em seus olhos. Mas sim no modo como você os ergue quando nos encontramos. Não creio que seja intencional, mas quase nada na vida é. E não é tal verdade que nos guia? A verdade de que não se trata dos retratos da pigmentação da alma, mas sim dos percursos que os cílios incrivelmente descrevem em busca de seu destino.

Quando ergue teus olhos

     Talvez seja a repentina mudança da direção dos ventos vindos de lugar nenhum, ou talvez seja apenas uma ideia repentina que floresceu em minha mente como um cravo cultivado da forma mais dócil possível. A questão é que surgiu-me o pensamento obliquo de qual seria a real natureza de meu amigo Chubble. Acredito que seja uma morsa. Não é uma ideia de toda ilógica, mas sim o resultado de consequentes considerações que fiz sobre seus atos.
     Primeiramente, é preciso que você, caro ouvinte, saiba do que se trata tal espécime. Para início de conversa, que fique bem claro: ninguém nunca viu uma morsa. Caso um indivíduo afirme já ter visto, trata-se de um salafrário impostor, pois morsas não são animais que se afirme ter visto se não tiver visto realmente.
     Uma morsa não é uma espécie de ave de rapina, ou muito menos um termo pejorativo que possa ser usado para ofender alguém (embora diversas vezes seja usado com tal intuito por biólogos do signo de sagitário). A morsa trata-se de um formoso mamífero, que não habita desertos escaldantes nem casas de repouso religiosas. E é por essas e outras características que acredito que Chubble seja uma morsa.
     Morsas são notavelmente incapazes de desenvolver habilidades como dança ou separação silábica de proparoxítonas. Igualmente, meu caro amigo Chubble encontra dificuldades em realizá-las devido a sua extrema aversão a movimentos rítmicos e professores de português.
     Morsas costumam não falar mal de seus amigos pelas costas. E Chubble é do tipo de pessoa que escreve os defeitos alheios em letras grandes numa lousa visível diante do indivíduo.
     Morsas não vivem em torno de duzentos anos. E Chubble afirma que também não viverá até tal idade, devido a seu psicótico trauma por números iniciados pelo algarismo 2.
     Morsas não pensam apenas em dinheiro. E Chubble é a segunda espécie mais desinteressada por bens materiais que já encontrei (freiras de cabelos ruivos ocupam a primeira posição).
     Morsas não pensam nas consequências de seus atos. Vivem por instinto. E Chubble é considerado por muitos como o pai da frase “Siga o que seu coração diz”.
     Morsas também não são adeptas a se exibir constantemente por suas qualidades. Do mesmo modo, Chubble acredita que grandes talentos não necessitam de serem jogados para o alto para serem descobertos.
     Morsas não julgam um bom livro pela capa, ou um indivíduo pela aparência. Assim como Chubble sempre aguarda que certa intimidade se estabeleça, antes de dar início ao julgamento.
     Após a reunião de tantas evidências, concluí que não havia como me enganar. As semelhanças entre Chubble e as morsas eram muitas para que eu as ignorasse.
       Contudo, um breve impasse surgiu diante de mim, deixando-me duvidoso, por ser a única gritante diferença entre Chubble e tais formosos mamíferos: Chubble é um exímio admirador de queijo gorgonzola. E alguém por acaso já viu uma morsa que comesse queijo gorgonzola? Mas é claro que não! Afinal... ninguém nunca viu uma morsa.

Acredito que Chubble seja uma morsa

Sete facas possuía,
Sete ações executou.
Dotada de extasia,
Glória não hesitou.

Com a primeira, matou seu passado.
Dotado de perturbações.
A enfermeira, o ex-namorado,
Lançados aos tubarões.

Com a segunda, matou seus pais,
Culpados por sua indiferença.
Valores prontos se esvaíram,
Libertando enfim sua crença.

Com a terceira, matou jornalistas,
Independente da ética ou ocasião.
Não aguentou que tais moralistas
Limitassem sua opinião.

A quarta e a quinta se uniram,
Como se fossem uma só.
Em dois golpes, matou seu futuro,
E o prazer de tornar-se avó.

Não foi surpresa que a última fosse usada em suicídio.
O único erro de Glória foi matar-se antes do fim.
Da sexta faca, logicamente, ela havia se esquecido.
A sexta ação não concluída é o que resta para mim.

As Sete Facas de Glória

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