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É bem provável que digam os anjos que a chuva tinha cheiro de chocolate suíço no dia em que Soraia nasceu. Embora Chubble insista amargamente que não há mesmo maior revelia num derivado de cacau europeu do que numa boa tapioca brasileira. De qualquer forma... o cheiro era devanestador. Neologismo que aqui significa “aquilo que devanesta”.
O fato é que Soraia nasceu.
E como todo aquele que nasce, a garota cresceu.
E como toda garota que cresce, a jovem tornou-se mulher.
Sim. Mulher, com seios, TPM e sexto sentido. A pele morena, a cada ano mais escura, em contraste com os dourados cabelos, a cada dia mais tingidos. Trazia-lhe admiradores, assim como lhe traziam filhos.
Durante sua trajetória, engravidou cinco vezes de cinco distintos fornecedores de esperma. Dos filhos, três garotos e duas mulheres. Uma definitiva prole ideal para servir de combustível... este tal que acendia a centelha que ela precisava para alastrar sua maternidade.
Ser mãe. Esta era a vocação de Soraia.
Se havia algo que nenhum alguém jamais poderia negar era o incondicional afeto e preocupação que a mulher tinha por seus filhos.  Não apenas pelos cinco filhos legítimos que trouxera do ventre. Mas também qualquer reles e palpável necessitado que batesse a sua porta, janela ou panturrilha em busca de ajuda. Soraia considerava qualquer amigo ou conhecido como filho, e vivia seus dias cotidianamente prestando ajuda ao primeiro grito de socorro.
Foi tal vocação maternal que a levou a criar a distinta Escola Especializada Em Escoteirismo. Um belíssimo local que captava indivíduos infantis das favelas, ruas, praças e condomínios fechados, e os robotizava para uma vida fartamente recheada de valores e boas ações, instaurando um amor incondicional pelo lema “O próximo antes de mim”.
Os garotos e garotas escoteiros foram muitos. Passaram-se anos, e novas turmas surgiram, à medida que as seguintes subiam de nível, até alcançar a graduação. Os “Escoteiros de Soraia” tornaram-se conhecidos, por toda a cidade... por todo o estado... por todo o país. Salvavam crianças em árvores, e gatos perdidos em shoppings e supermercados. Faziam homenagens públicas a espécies silvestres da fauna, e capturavam políticos para mantê-los em cativeiro.
A franquia das Escolas Especializadas Em Escoteirismo se multiplicou em cinco distintas sedes por todo o território nacional. Cada um dos colégios se tornou responsabilidade de um dos filhos legítimos de Soraia.
O primeiro foi dado à Catarina, que aceitou-o de bom grado, sempre certa de que merecia as melhores regalias por ser a mais velha dos irmãos.
O segundo foi para Pedro, que, sempre cismado em discordar de tudo o que a irmã fazia, logo tomou uma das vagas para si, para provar que podia fazer um melhor serviço.
O terceiro irmão, Jeremias, logo viu na oportunidade uma forma de aumentar sua popularidade, descolando também alguns fundos para uma futura aquisição de um Xbox, e assumiu a direção de uma das franquias.
A quarta escola, ficou sob os comandos de Esther, a penúltima irmã, que de tão estudiosa e aplicada em suas pesquisas místicas, chegava a ser perturbada e lunática.
A última e, sim, menos importante... foi designada para os domínios de Evandro. O caçula da estirpe, com quem Soraia raramente tinha contato.
E assim se estabeleceram os negócios de família.
Mas nem só de pão viverá o homem. E nem só de amores vivia Soraia. Os anos na política se transfiguraram para um governo opressor, que abusava do poder e destoava daqueles que acreditavam em justiça. Condenada por propagar ideologias de alta periculosidade, Soraia foi mandada para o exílio. Expulsa para uma ilha longínqua, condenada a nunca mais voltar.
Contudo, os recados que deixara na geladeira para os cinco filhos afirmavam com toda a certeza que um dia ela voltaria, e que cada um deles deveria preservar o seu legado até que o momento chegasse.
Dessa forma, cada um passou a guiar sua Escola Especializada Em Escoteirismo à suas próprias maneiras.
Catarina, a mais velha, prometeu que, de todas as formas, manteria viva a imagem da mãe. Com uma extrema afeição por fotos, mandou emoldurar centenas de quadros com os semblantes afetuosos de Soraia, e espalhou-os por todos os cantos. As imagens serviam de lembrança. Um carinhoso cutucão na memória que permitia aos escoteiros mirins sentirem a matriarca sempre por perto.
Contudo, buscava uma maneira de ir em busca da mãe. Sem tê-la por perto, buscou ajuda dos seus seguidores. Os demais Escoteiros já graduados que haviam vivido em seu propósito, e que sabiam de cor todos os ensinamentos, desde o Manual de Cozinha à Base de Queijo, ao Guia de Sobrevivência Na Sessão de Nicholas Sparks. Cada um daqueles grandes nomes conhecidos trazia para a escola de Catarina ensinamentos inigualáveis, fazendo com que todos se sentissem mais próximos da mesma distante Soraia.
Pedro, por sua vez, recusou-se a pedir ajuda de tais profissionais. Acreditava que a sabedoria de Soraia era tão magnificamente perfeita, que ninguém a ela podia se equiparar. Contudo, era sabido que sua mãe havia sido, além de matriarca, e atriz substituta na versão municipal de O Mágico de Oz, uma excelente escritora. Deixara para trás textos e escrituras recheados de seus princípios e ensinamentos.
Assim, para que não houvesse erros ou mirabolações, a escola de Pedro usou os livros. Os alunos eram didaticamente educados todos os dias, estimulados a ler textos e mais textos de Soraia que lhes ensinavam belamente. As turmas foram muitas, e os estudantes cada vez mais capacitados tornaram-se exímios conhecedores dos livros de escoteirismo. Com o tempo, a Escola Especializada Em Escoteirismo de Pedro abriu turmas para o ensino básico, assim como classes para pós-graduação. E a educação tornou-se entre eles primazia.
Pedro, entretanto, jamais deixou de buscar pela mãe. Sabia enfim que não havia melhor meio de aproximá-lo de Soraia do que ler suas belíssimas palavras. E vivenciando seus textos cotidianamente, ao lado de um pacote de Doritos diário que alimentava seu vício incessante por salgadinhos, o segundo filho seguiu a vida mantendo a esperança no retorno da mulher.
Jeremias, por sua vez, teve medo de deixar que cada estudante interpretasse os livros de Soraia por conta própria. A receita de Bolo de Papo de Anjo contida no Livro dos Segredos Culinários, por exemplo, era tão complexa que, se mal interpretada, poderia resultar no nascimento de um vírus capaz de causar um verdadeiro apocalipse. Decidiu então que caberia a ele interpretar as palavras da mãe e ensinar aos alunos o que cada sílaba significava. Decidido a manter viva a imagem de Soraia, gastou anos contando aos Escoteiros sobre a pessoa maravilhosa que esta fora e ainda era.
Não pôde, é claro, deixar de tentar buscá-la de alguma forma. Sabia o quanto a mãe era adepta de popularidade. Assim, decidiu divulgar seu nome de todas as formas, disposto a fazer que o mundo todo soubesse quem ela era. Uniu grupos de estudantes e saiu pelas ruas, batendo de porta em porta, contando a todos sobre Soraia e os valores maravilhosos que ela propagava. As pessoas se encantavam com tudo o que Jeremias espalhava, e logo o nome da matriarca dos Escoteiros tornou-se conhecido e estampado em outdoors, programas de auditório, e adesivos de para-choque.
Já a jovem e ametodicamente ousada Esther, decidiu ir além do proposto pelos irmãos mais velhos, e buscou um meio de haver um real contato com Soraia. Era sabido que os sinais de telefone e conversas por Skype não funcionavam no território exilado, mas foi com muita pesquisa e testes duvidosos em rádios abandonadas e depósitos radioativos que a mulher conseguiu uma maneira. Desenvolveu um método de captação de mensagens através de antenas parabólicas, no qual sussurros eram jogados em sua mente através de ondas magnéticas, permitindo-a contatar indivíduos da Ilha do Exílio. As antenas jamais se conectaram diretamente a sua mãe, mas contatavam vez ou outra alguns exilados que viviam com ela e lhe transmitiam suas mensagens.
Sem nunca deixar as pesquisas com as antenas comunicativas de lado, Esther passou a divulgar as mensagens dos amigos de sua mãe, ensinando aos alunos valores sobra a bondade e a caridade. O sistema da Escola, organizado em níveis, apenas permitia que o aluno prosseguisse para uma nova etapa se ele realmente demonstrasse bons feitos na trajetória.
Pois então...
Que uma relação entre quatro irmãos que desde a infância não fora pacífica, logo tornou-se alimentada por um espírito competitivo de quem seria o melhor Escoteiro-Mór. Cada um passou os anos seguintes na tentativa de provar que, quando a mãe enfim retornasse, dentre todas as Escolas, da sua ela mais se orgulharia.
Distante então de Catarina, Pedro, Jeremias e Esther, o caçula Evandro cuidava também da Escola da qual ficara encarregado.
Ao contrário dos irmãos, jamais buscou por Soraia. Nunca havia chegado a criar nenhum vínculo afetivo pela mãe sempre atarefada.
Assim, por mais que cuidasse do legado que ela lhe deixara, jamais se importou em pensar na figura da matriarca, e, principalmente, em momento algum acreditara que ela algum dia retornaria do exílio.
Por mais que não pensasse nela... pensava em seus alunos. Esboçava um apreço e afeto imenso por cada um daqueles pequenos jovens em sua Escola, e voltou os olhos para a receita que os tais tanto almejavam: bandejas de educação com sérias pitadas de carinho.
Ajudou não apenas na formação de seus Escoteiros, mas lutou por direitos dos idosos em protestos na prefeitura, realizou campanhas de agasalhos e brinquedos novos para famílias da região, contratou engenheiros que esboçassem um devido projeto de saneamento para os bairros necessitados, construiu uma rede gratuita de oficinas de arte e esporte para crianças e adolescentes, enquanto distribuía semanalmente dez mil caixas de pizza de franbacon para todos da comunidade.
Viveu sua vida em prol de sorrisos... Sorrisos das faces de seus alunos, de seus amigos, de conhecidos, e de desconhecidos também.
Por mais que houvesse se esquecido da mãe, jamais se esquecera dos irmãos. Enquanto os demais perpetuavam em brigas e discussões tolas numa competição de quem dirigia a melhor Escola, Evandro se dispôs a ajudar cada um da melhor maneira que pôde. Ajudou Catarina a contatar professores de outras escolas para lhe prestar auxílio. Contribuiu com as pesquisas de Pedro lhe fornecendo livros de sua biblioteca privada. Fez empréstimos financeiros para que Jeremias pudesse investir na divulgação de seu trabalho. E selecionou alguns de seus melhores Escoteiros para ajudar na construção das antenas parabólicas de Esther.
E foi neste cair das pétalas que anos se passaram.
As Escolas dos quatro irmãos mais velhos seguiam os passos de Soraia, enquanto a escola de Evandro seguia os passos que se mostravam necessários.
Eis então que uma grave epidemia adoentou os corruptos no poder. Logo, ditadores morreram em massa, e o país voltou ao período democrático. Num dia de inverno, tipicamente sem neve, onde cada exilado teve a chance irrecusável (ou não) de voltar para casa, Soraia retornou.
A multidão foi à loucura. Pessoas, animais e palhaços foram às ruas para festejar a volta daquela que fundara as tão respeitadas e essenciais Escolas Especializadas Em Escoteirismo.
A felicidade de ninguém, contudo, podia ser maior do que aquela que alastrava os filhos da mulher.
Catarina, Pedro, Jeremias e Esther vestiram seus melhores pares de roupa, com sapatos combinando e sorrisos polidamente carismáticos. Não viam a hora de mostrar para Soraia tudo aquilo que haviam construído em sua ausência. Os quadros e bustos em sua homenagem, as pesquisas fundadas em seus livros, a publicidade em torno de seu nome, e os projetos de caridade feitos conforme ela bem ensinara.
Soraia nunca se sentiu tão amada. Os quatro filhos mais velhos lhe haviam provado jamais terem se esquecido de seu nome.
Mas foi no encontro do último filho que instaurou-se a surpresa real. Envergonhado, Evandro arrependia-se de todas as formas de ter duvidado da própria mãe. De ter perdido as esperanças. Desconsolado, pedia em murmúrios que ela o perdoasse.
Mas não foi o que fez Soraia. A matriarca enxergou na Escola de Evandro tudo aquilo que sempre pregara. Em cada ato e detalhe singelamente realizado, recendia a mensagem de seu lema principal: “O próximo antes de mim”.
- Seus irmãos passaram a vida cuidando com amor dos Escoteiros deles, na intenção de me agradar. – ponderou a mãe - Tu passaste o mesmo período cuidando dos teus, na simples intenção de que seus Escoteiros se sentissem amados, e aprendessem a amar também.
Foram estas palavras que lhe deixara antes de dar as costas e partir em férias prolongadas para a Escandinávia. Mas para Evandro, que sempre vivera em prol de sorrisos, o sorriso dela era tudo. Tudo para deixar claro o que se passava na mente sinuosa da negra mulher de cabelos tingidos.
Soraia jamais quisera ser amada. Quisera ela, na verdade, que o mundo fosse amado por seus filhos.
Das homenagens de Catarina, da esperança de Pedro, da dedicação de Jeremias e do carinho de Esther... obtivera amor.
Mas, naquele dia, apenas da pura e despretensiosa entrega árdua de Evandro obtivera orgulho.
Pois lhe mostrando que amava o mundo, lhe mostrava que amava o lema, e lhe mostrando que amava o lema, Evandro acabava mostrando que, mais do que todos outros, amava Soraia acima de todas as coisas.

Do Sorriso de Soraia

                “Há muitos e muitos anos, nas emaranhadas e úmidas terras de um bosque mais que distante, vivia um peculiar espécime de elfo travesso. Com olhos esverdeados tal qual a cor de seu gorro arrebitado, e um ossinho peculiar num dos ombros tão pontudo quanto as orelhas que despontavam dentre os cabelos castanhos bagunçados, passava incontáveis horas do dia fazendo teatro e poesia para os amigos da floresta.
Sabendo que a arte era talvez a magia mais poderosa de todas, apático o elfo se tornou no dia em que foi capturado, e levado em jaula numa carruagem de primeira chamada para um castelo de muros tão altos e rígidos quanto as normas que eram ditadas por quem lá vivia. Um castelo que, contra sua vontade, se tornou seu mais novo lar. As paredes cinzas e sem graça do deplorável local o causavam ânsia diariamente. E os humanos que pelos corredores rodeavam geravam no pobre elfo medo e talvez até um pouco de decepção.
Mas foi então que, num belo dia, o elfo conheceu uma bela condessa, de personalidade forte e pupilas acastanhadas de olhar tão forte quanto tal. A condessa enxergou no elfo algo que poucos enxergariam num ser tão paranormalmente bizarro. Viu em seu jeito desengonçado e em seus devaneios curiosos que ele possuía a incrível habilidade de declamar contações. E tão esperta a sábia condessa o admirou que logo tornou-se fiel amiga, e junto a um grupo de outros súditos fiéis, pintou as paredes de uma das salas do castelo, e fez com que  o elfo aprendesse a acreditar em sua própria magia. Magia esta com a qual contava histórias todos os dias, para as crianças da plebe.
O elfo e a condessa se tornaram artistas. Artistas num castelo cor de cinza. Mas bem mais do que isso, se tornaram amigos. E bem mais do que isso poderiam ser... Mas o elfo sempre um tanto bobo e com receio, acreditava que a condessa era-lhe muito diferente, e que mesmo que fosse sua amiga, somente uma flor de pólen alvejado pelo cupido seria capaz de fazer despertar nela algo mais forte do que amizade.
Mas tal flor só existia num reino distante... numa plantação de lírios onde vivia um humilde espantalho, cansado de sua vida pacata. Como que sempre ansioso para que algo fantástico em sua vida acontecesse, ainda que há muito tempo tivesse perdido a esperança.
Foi então que vinda dos deuses, emergiu entre a colheita uma belíssima criatura, envolta num manto negro que descia em sinuosas curvas pelo corpo e escondia em boa parte seu rosto, deixando à mostra lábios rosados de arredondado contorno, que formavam em uníssono uma silhueta de coração. Era uma Parca. Um ser místico enviado do Olimpo na intenção de em seu destino interferir. Ergueu ao espantalho uma das mãos e fez-lhe um convite para uma viagem fatídica em direção às terras do Sul.
Partiram os dois rumo ao desconhecido numa pomposa e cumprida carruagem, a qual portava em suas laterais o brasão de uma destemida águia. Ao longo do caminho, a Parca contava ao espantalho sobre a fatídica arte dos sonhos, sobre medos e desilusões, sobre alegrias e fantasticidades reservadas pelo destino. O espantalho, a cada dia da viagem, se tornava mais íntimo da misteriosa criatura, e mais fascinado pelo seu modo sorridente, carinhoso, confiante e principalmente... impulsivo de ser.
Quando chegaram ao seu destino, desembarcaram numa ilha de ares tão reviravoltos que tudo por ali parecia fora do comum. Os habitantes do local possuíam bizarros costumes, somados a uma peculiar e insistente mania de acreditar numa tal mágica oculta que existia naquelas terras. Haviam lendas que contavam sobre passeios à barcos misteriosos que uniam casais impensáveis em trajetos ao pôr do sol. Assim como rituais realizados por jovens nos quais se pingava álcool nos ouvidos de garotas que lhes chamassem a atenção. O clima bipolar da ilha, ora de bem, ora de mal, era tão inconstante e impulsivo que gerava até alucinações. Em tardes ensolaradas, habitantes chegavam a relatar que viam a Virgem Maria passeando de braços dados com o Diabo pela calçada.
                Pois então que tantas histórias e peculiaridades traziam até a ilha os mais longínquos visitantes. E eis que enquanto a parca e o espantalho se fugiam em tardes escondidas entre abraços e mordidas, de uma outra longa estrada vinha mancando um míope viajante. Um lavrador quase cego, em busca de uma lenda antiga que há tempos ouvira numa canção sobre um pequeno castelo nosso.
                Caminhando pelo mercado, em busca de orientação, foi imediatamente atraído ao ouvir o mais belo dos sons do reino. Suas pupilas se arregalaram de súbito no momento em que a tal intensa, serena e belíssima voz soou em seus ouvidos, num doce cantarolar de uma música desconhecida, que recitava em versos promessas sobre nunca desistir. Procurou por aquela voz fantástica, até encontrar sua dona numa das tendas da vila.
                Era uma belíssima artesã, de feições graciosas e maçãs do rosto num leve formato arredondado que chegavam a formar simpáticas e airosas pseudo-bochechas. Cantava durante as tardes, erguendo a voz em tons graves e agudos, e encantando a todos os viajantes com seu timbre inigualável.
Fascinado por aquela voz, o míope se aproximou com certo receio. A sábia artesã, contudo, tirou de dentro dele toda a sua insegurança. Simpatizou-se pelo viajante e delo logo se aproximou. Ensinou-o a enxergar com algo mais profundo do que os olhos. Disse-lhe como era possível enxergar com o coração.
Guiou o quase cego pelas ruas e vielas da abstrusa cidade, ensinando-lhe a esplêndida capacidade de confiar em alguém. De tavernas que serviam massas cupim-alhenosas, à banquinhos de pedra escondidos entre árvores que se isolavam do resto do mundo, passando por estacionamentos onde uma afável carruagem negra os servia de refúgio, e até uma pequena vila onde havia quartos de luxo dentro dos quais as horas passavam mais rápido do que o normal. Juntos, passaram horas, dias e semanas que se desenrolaram num misto de afeto e paixão.
A artesã de bela voz ensinou ao míope que podia muito bem enxergar a vida de forma confiante. Talvez o mais importante... ensinou-o a ter fé em seus sonhos. E findou os dias de passeio, dando-lhe de presente um óculos de cobre com lentes mágicas, que o permitiam enxergar as coisas como são de verdade. O não mais míope viajante não dispunha de dinheiro para dar-lhe em troca, mas ainda assim fez questão de pagar-lhe em retribuição. Deu a ela um singelo anel, que dispunha de uma pedra no topo, em formato exato de coração.
Naquele singelo ato, a magia que o viajante tanto procurava enfim despertou-se nas terras nefastas do reino curioso. O segredo oculto em feitiços previa que no dia em que o mais puro dos amores conquistasse o coração da impulsiva artesã, todas as terras e reinos vizinhos seriam enfim visitados e conquistados pela magia mais forte de todas.
Magia esta que se expandiu e alcançou todos os habitantes do continente. Magia que envolveu a sábia Parca e o espantalho, e que enfim intercedeu na vida do elfo e da condessa. Magia que inacreditavelmente era mais forte do que a arte. Falava mais que a poesia. Encantava mais que o teatro. Contava mais histórias do que se podia imaginar. E resistia a qualquer amadurecência vinda do destino. Magia esta... que era o amor.
Amor que não brotava de feitiços. Brotava de uma entrega árdua. Nascia com tempo e crescia com cautela, regado por confiança, carinho, companheirismo e honestidade. E por anos todo o continente viveu em prosperidade. E ainda hoje... os descendentes de todos os súditos, elfos, plebeus e seres místicos que lá habitam, são diariamente invadidos por tal sentimento que estimula qualquer ingênuo a se levantar de manhã só pra vir molhar os pés na primeira onda.”
                - Ele... ele escreveu isso? – meus lábios chegam a tremular um pouco ao terminar de ler o texto e indagar à professora a minha frente.
                - Sim. – profere a rígida Dona Marta com o semblante fechado – Seu filho novamente voltou a desobedecer as orientações disciplinares, e escreveu mais um bizarro conto lúdico no lugar da redação. Eu pedi para as crianças uma dissertação que debatesse sobre a importância das relações de afeto familiares. E ele me veio com isso aí.
                Ao meu lado, as mãos de minha esposa apertam meus dedos de leve, e noto que ela tenta com incerteza explicar a situação:
                - Dona Marta, nós já conversamos com ele sobre isso...
                - Seu filho não leva os estudos a sério! Tudo para ele não passa de uma tola brincadeira sem sentido! Vive com a cabeça nas nuvens. Não obedece às atividades propostas. Já tentamos de tudo com ele... mas ele insiste em não se encaixar nos parâmetros.
                Minha mulher fita meus olhos de relance. Há tempos que somos chamados na escola para ouvir reclamações de atitudes insensatas e impulsivas vindas de nosso garoto de dez anos. A redação escrita por ele, redigida nas folhas que Dona Marta há pouco colocou em minhas mãos, parece ter sido a gota d’água para a professora impaciente.
                - Não se preocupe. – é o que posso dizer à severa mulher – Nós vamos ter uma conversa séria com ele.
                - Onde ele está? – pergunta minha esposa.
                - Tive que dar-lhe uma advertência por indisciplina, e pedi que a professora da turma de alunos de reforço o mantivesse na sala enquanto me reunia com os senhores.
                - Se isso é tudo o que tem pra nos dizer... – ela se levanta e puxa meu braço esquerdo – vamos levá-lo pra casa agora.
                A professora se levanta a nossa frente, e nos guia ao longo do corredor. Durante o trajeto até a sala, noto que os lábios de minha esposa estão franzidos, e as narinas infladas, como sempre acontece quando somos chamados até a escola e acusados de ter um filho lunático em excesso.
                Dona Marta por fim caminha até a porta da sala da turma de reforços, e gira a maçaneta. Me aproximo da soleira ao lado de minha mulher e espero ver meu menino sentado num canto de braços cruzados e expressão emburrada por ter levado uma nova advertência disciplinar.
                Mas não é isso o que vemos a nossa frente. A surpresa nos invade ao notarmos que toda a turma de alunos da aula de reforço, assim como a suposta adulta que seria a professora, encontra-se sentada em círculo pela sala, com os olhos atentos à apresentação que ocorre no centro. Com um pedaço de caderno em suas mãos, e uma cartola improvisada com jornal em sua cabeça... lá está ele.
                Nosso filho.
Com uma facilidade de discurso incrível para um garoto de apenas dez anos, ele relata aos colegas e à professora os últimos detalhes de alguma das histórias saídas de sua mente:
                - E assim, a madastra e os três porcos mosqueteiros entenderam que era errado roubar as canetas do colega. E todos do reino das lapiseiras viveram felizes para sempre. E essa história aqui, entrou por uma porta e saiu por outra... e quem quiser que conte outra!
                Ele se curva em agradecimento e todos os alunos o aplaudem. Não posso deixar que um sorriso imenso escape de meus lábios ao ver aquela cena.
                - O que está acontecendo aqui? – Dona Marta interfere num tom já reprendedor.
                A professora de reforço se levanta do meio da roda e põe-se a explicar com rapidez.
                - Oh, sim, Marta! Aproveitei que ele estava aqui, e deixei que os alunos aproveitassem uma das histórias de nosso pequeno grande contador!
                - Como é? Esta aula é para reforço de gramática e estudo de linguagens! E não para incentivar a cabeça sem limites desse garoto!
                - Cabeça sem limites? – a professora recua com estranheza – Marta, o garoto é brilhante. Ele sabe contar uma história como ninguém. Os colegas são fascinados por ele.
                Os olhos de minha esposa vêm de encontro aos meus e sorrimos um para o outro de forma orgulhosa.
                - Pai, mãe! – ele logo grita ao ver-nos do outro lado da sala e corre até nós num abraço impulsivo.
                Juntos, abraçamos nosso garoto com a mesma intensidade, enquanto a ríspida Marta ainda nos fita num olhar seco. É então que minha esposa logo se levanta, e faz por fim as honras de desentalar aquilo que lhe prende a garganta.
                - Você viu o que aconteceu aqui, Dona Marta? Parece que as habilidades consideradas “desvirtuadas” de meu filho conseguem prender mais a atenção dos alunos do que as aulas ministradas pela senhora. Ou vai me dizer que alguma vez já conseguiu reunir todas as crianças sentadas em círculo com tamanha atenção durante uma explicação?
                - Ora, essa! – a mulher rebate com arrogância - É muito fácil pro garoto prender a atenção dos colegas colocando uma cartola de papel na cabeça e contando histórias absurdas sobre monstros e duendes.
                - Pelo contrário, professora. – minha boca profere com firmeza – Não é fácil de maneira alguma. É extremamente difícil. Criar coragem para mostrar todas as ideias que possui guardadas em sua mente, e expressá-las através da arte... isso é um trabalho perigoso. Pode vir a render críticas e humilhações. E muitas vezes o pobre coitado pode acabar não sendo bem compreendido. Meu filho faz o que faz pelo amor ao que acredita. Por isso... ele conta histórias. Histórias que ele espera que inspirem os colegas a acreditar que a vida pode ser levada desse modo... com paixão e confiança.
                - Está mesmo me dizendo isso? Acredita que a indisciplina de seu filho é uma espécie de... método educativo?
                Minha esposa e eu soltamos uma leve risada, como se a resposta da mulher significasse para nós dois uma pequena piada interna.
                - Dona Marta, há tempos lidamos com gente como a senhora. – minha esposa infere com firmeza – Gente que se prende a paradigmas, e se impede de enxergar as coisas de outra maneira. Se tivesse lido com atenção à redação do meu filho, veria que ele dissertou sobre tudo aquilo que pediu. Ele contou-lhe sobre o requisito mais crucial para a formação de uma família. Contou-lhe sobre o amor. Aquele tipo de amor puro e honesto vindo de um casal, que inspira outras pessoas a viver da mesma maneira.
                - A diferença é que ele escreve com paixão... do mesmo modo que o ensinamos a viver a vida. – complemento segurando numa das mãos de meu pequeno escritor com força – Mas não se preocupe. Você ainda tem bastante tempo pra poder aprender com ele.
                Com sorrisos orgulhosos em nossos semblantes, minha mulher e eu seguramos lado a lado nas mãos de nosso filho e o levamos pelo corredor em direção a saída.
                - Este foi um dos melhores textos que você já escreveu. – murmuro com orgulho.
                - Ah, pai, foi você que me contou quase todas essas histórias. – ele rebate em passos saltitantes - O conto do elfo e da condessa, da parca e do espantalho... eu só escrevi tudo aquilo que me conta desde pequeno.
                - Bom... parece que você realmente tem uma cabeça tão louca e viajada quando a do seu pai. – minha esposa murmura em seu costumeiro sorriso apaixonado.
                - Sem falar nas atitudes inconstantes e impulsivas que herdou da sua mãe. – rebato num sorriso que reflete afeto ainda maior – Pois é, parece que você herdou nossas melhores qualidades.
                - Tudo bem, tudo bem... Agora, podemos ir comer pastel? – ele pede apertando o estômago - Eu tô numa fome...
                Rimos em conjunto e adentramos o carro no estacionamento. Peço a ela que dirija dessa vez, pra que eu possa relembrar os velhos tempos. Antes mesmo que ela dê a partida, o pequeno Miguel já fecha os olhos e adormece no banco de trás.
                - É... parece que temos um soldado cansado hoje. – rio, enquanto ligo o aparelho de som.
                Mesmo após tantos anos terem se passado, a voz de Jason Mraz ainda sai das caixas acústicas cantando “I won’t give up” e nos faz sorrir olhando um para o outro. Minha esposa então volta os olhos para o trânsito enquanto dirige, e solta um suspiro que soa como um misto de sensações satisfatórias.
                - Ele está se tornando um Contador de histórias incrível.
                - Nunca pensei que ele levasse tão a sério todas as histórias que eu lhe contava. – murmuro numa expressão contente - Hoje ele me mostrou que se lembrava de cada uma delas.
                - Ele tem pelas suas histórias o mesmo apreço que eu sempre tive. – ela me responde com um sorriso – Sabe que pra mim você sempre foi o melhor Contador que existe.
                Ainda hoje meus olhos são inundados por lágrimas quando vejo o modo como ela me enxerga. Ainda hoje meu coração bate mais forte sempre que ela me enxerga pelo que sou de verdade. Ainda hoje ela me faz confiar em mim mesmo, e amá-la mais e mais a cada dia.
                - Acontece que as histórias não são somente minhas. Eu tive ajuda pra escrever cada uma delas.
               - É claro que teve... – ela brinca num sorrisinho orgulhoso – Toda história precisa de uma princesa, não é mesmo?
                Respondo me aproximando e dando-lhe um beijo no rosto. Ela observa o reflexo de Miguel deitado no banco traseiro e suspira mais uma vez, antes de perguntar:
                - Você acha que ele sabe?
                Não entendo a pergunta de imediato.
                - Sabe... o quê?
                - Você acha que ele sabe... – ela volta a dizer – que as histórias são reais... e que ele é o final de todas elas?
                Demoro alguns segundos para responder. Fito por um instante o reflexo de nosso garoto pelo retrovisor, mas meus olhos são então direcionados ao anel que ela ainda tem em seu dedo. O aro com a pedrinha de coração no topo, que repousa sobre o volante do carro, na pele de minha artesã.
                Por fim, esboço mais uma vez um sorriso que expressa minha extrema felicidade.
                - Sim, meu amor... Ele sabe, com certeza.
               E sabia... que do mesmo modo que era o final de muitas histórias... ele era também o início de muitas outras, que entravam e saíam por portas diversas, mas preenchiam um livro de páginas fantásticas que não se findava jamais.

De contações e anéis

Rosalinda era uma singela habitante de uma cidade pacata. Destinada, assim como seus vizinhos, a vagar pela monótona rotina que a vida lhe proporcionava. Já em torno dos setenta anos de idade, possuía cabelos grisalhos, sempre presos num firme coque, que combinados aos óculos de lentes grossas e ao vestido bordado, lhe davam uma aparência materna e acolhedora.
Nunca tivera filhos. O marido falecera antes mesmo que pudesse lhe fornecer uma prole. Mas Rosalinda nunca deixara que tal fato a abatesse. Sem filhos para chamar de seus, fez dos vizinhos e conhecidos próximos suas crianças. Ajudava a todos da comunidade, exercendo trabalhos voluntários, cozinhando em festas de caridade, e sempre disposta a fornecer ajuda a qualquer um que precisasse de socorro. Ao passar pela rua todas as manhãs, a velha senhora recebia sorrisos e abraços de todos os cidadãos. Não havia ninguém que não a conhecesse e não a admirasse por sua bondade e fraterna simpatia.
Cozinhava seus bolos e tortas durante as manhãs, tricotava durante as tardes, e festava no intranquilo centro de idosos todas as noites com afáveis companheiros. Cozinhar, tricotar, bailar e prestar ajuda a quem precisasse. Tal rotina rodeava a vida de Rosalinda, a qual todos bem conheciam e tanto admiravam.
Mas disse um sábio amigo em formato de morsa certa vez que seres humanos são itens complexos, que não devem ser julgados por aquilo que fazem durante o dia, mas sim por aquilo que fazem nas madrugadas. Um indivíduo que se limita ao singelo ato de dormir, por exemplo, prova nada mais ser do que um reles idiota. Um indivíduo que se arreganha à fatídica arte de sonhar já demonstra certa aptidão para realizações, embora preguiça de levantar-se e realizá-las bem acordado. Um indivíduo que passa a noite sobre o efeito de álcool e drogas... é um bêbado drogado. Mas essa história não é sobre você, sobre seu irmão caçula, ou sobre a polêmica Lindsay Lohan. Essa história é sobre Rosalinda, e sobre o que ela fazia em suas madrugadas.
Mal sabiam os ingênuos cidadãos que a doce senhora mantinha um hobby em segredo. Algo que fornecia a sua vida um propósito, o qual a estimulava a levantar-se todas as noites, e utilizar-se da insônia habitual para uma prestativa atividade. E assim, toda noite, às exatas três e vinte e sete da madruga, Rosalinda saía de casa com sua mochila de apetrechos para caça... e matava pássaros.
Que singelo e suculento prazer ela sentia ao trucidar as pequenas bestas cantantes uma a uma, enquanto dormiam inocentemente em seus ninhos dispostos em árvores pela cidade. O som dos pios desesperados e o flutuar das penas pelos ares respingadas de sangue lhe permitiam desfrutar de um deleite indescritível, que a preenchia por breves segundos e lhe instigava a matar uma quantidade de aves cada vez maior.
Em alguns mirava o estilingue, outros acertava com um bastão espinhoso, os mais frágeis esquartejava com uma adaga rapidamente, e em locais isolados, onde nenhum cidadão poderia ouvi-la, arriscava-se a matá-los a longa distância com o rifle conivente. Por anos, exterminou os pássaros da cidade por incontáveis madrugadas, permitindo que os cidadãos despertassem todas as manhãs sem nenhum canto melódico a lhes perturbar.
Até que num belo dia, talvez não tão belo por sinal, e talvez não tão dia visto que o fato só se deu na noite escura, uma jovem a flagrou durante o ato. Os olhos de Rosalinda se arregalaram, e sua mente desesperou-se ao pensar em como explicaria o fato de que assassinar belas aves a fazia feliz. A jovem, contudo, não recuou assustada. Se aproximou e segurou as mãos da velha senhora, retirando o rifle de seus dedos e dizendo-lhe que tudo ficaria bem.
Seu nome era Doralice. Uma garota de fibra, coragem e carbono. Uma dessas pessoas especiais que, como citadas acima, se dispõem a fazer algo mais produtivo durante as madrugadas do que simplesmente dormir. De olhos de um azul celeste, cabelo castanho arenoso, e singela voz que acalmava Rosalinda em seu pranto. A garota disse a velha que matar pássaros era um vício que adquirira por falta de afeto. Mas que tal podia ser corrigido com sua ajuda e devida terapia.
A partir daquele dia, em todas as mínimas madrugadas, a jovem e a velha saíam juntas, não mais para matar pássaros, mas sim para enxergar nos pequenos seres o doce milagre da vida. Doralice lhe explicava em sábias palavras sobre como cada singular animal se relacionava com o ecossistema, sendo assim importante para a natureza como um todo. Os pássaros não apenas embelezavam os campos e ruas pela manhã, mas também cortavam céus e nuvens trazendo alegria, alimentando seus filhos em ninhos acolhedores, e constituindo famílias formadas de pios, afeto e penugem.
Foi após treze noites consecutivas que Doralice deu seu trabalho por finalizado.  Havia ensinado com eficiência tudo o que sabia à pródiga idosa. Rosalinda sorriu ao ver-se livre de seu vício, ciente de que não mais precisaria trucidar tão belas criaturinhas para se ver feliz.
Com extrema afeição, abraçou a jovem, agradecendo-lhe por tudo o que havia lhe ensinado.
Num sorriso mais que materno e num gesto triunfal, a velha senhora ergueu o rifle e acertou três tiros em cheio na cabeça de Doralice. O sangue pintou o gramado com o mais puro escarlate e refletiu o brilho da lua de maneira poética. Rosalinda sorriu orgulhosa diante do corpo da garota.
Nunca mais cometeria a atrocidade de assassinar pássaros... Matar pessoas era bem mais divertido.

Madrugas de Rosalinda

(Texto finalizado às 1:40. Isso com certeza quer dizer alguma coisa...)


Sacção cognitiva. Foi este o termo inventado por meu amigo Chubble para designar o evento ocorrido quando duas histórias completamente diferentes são capazes de se relacionar, e ser comparadas de tal maneira que uma torna possível a compreensão da outra. Disse a ele que já existiam diversos termos para designar tal evento, sendo ‘metáfora’ talvez o mais recorrente. Mas insistiu o nobre ser que ‘sacção cognitiva’ é agora um neológico termo formalizado, e que não muito em breve o veremos estampado em didáticos livros de português.
                E é fazendo uso de tal sacção, que vos falo do dilema que envolve todo jovem escritor. A tão pomposa e complexa dama chamada Reescrita.
                Ah, a Escrita! Tão bela e ingênua em seu primeiro brilhar! Não há magia maior do que a presente no brilho que existe entre as linhas que trespassam o nascimento daquela ideia... aquela ideia que esteve em sua mente por eras... formigando para ser inscrita em papel. Quando seu texto finalmente nasce, o orgulho paterno lhe enche da maneira mais teatral possível. A história lentamente parte ao mundo, e você sabe que parte sua partirá junto a ela nessa partida partidária.
                Mas não há como negar. Fazer com que um texto nasça é peculiarmente prazeroso. Mas fazê-lo voltar ao ventre pra nascer uma segunda vez é desgastante e enfadonho.
                “Gostei do seu texto, caro amigo que me pediu uma opinião sincera, mas talvez você deva melhorá-lo, acrescentando mais detalhes no parágrafo onde descreve as axilas da protagonista, e alterando o que acontece no final. Aquele lance da explosão não se encaixou muito bem, desculpe. Tente mudá-lo.” E é com um comentário desses que tudo se desmorona. Não bastaram os meses de gestação que você gastou numa história... lá vem um sábio leitor e opina dizendo que você deve reescrever...
                Ah, a Reescrita! Tão necessária, mas tão demoniacamente chata! Passar pelos locais onde já esteve, e dizer aos seus amigos verbos e substantivos que eles não estão exercendo seu papel com maestria, e precisam ser trocados por outros que exerçam a função de maneira melhor. Mesmo que o autor concorde que há falhas em suas linhas, ele nunca vai se render a ideia de que alterar suas palavras é tão divertido quanto escrevê-las pela primeira vez. A escrita lhe serve de aspiração... é romper seus limites e expressar sua voz. Já a Reescrita vem lhe aparar as arestas, adequando seu texto ao que “deveria ser” e tornando-o mais aceitável... E quem disse que devemos sempre nos render ao que é aceitável?
                E é nessa sacção que chegamos a Shelby. A terceira e meia garota por quem Chubble se apaixonou (o ‘meia’ é uma história para mais tarde). Nunca entendi quais os motivos que levaram meu sábio amigo a gostar dela, mas sei que no momento em que pôs seus não-sei-quantos olhos na garota, sentiu uma atração que ia além de mera paixão casual. Não sabia se era o que os humanos costumavam chamar de amor à primeira vista. Por isso, olhou para Shelby dezessete vezes antes de ter certeza.
                Talvez eu tenha esquecido de mencionar as circunstâncias em que ocorreu tal encontro. Há tempos minha irmã fez uma curta viagem ao Rio de Janeiro, para cuidar de negócios que envolviam raquetes e croissants de chocolate, e sem nem mesmo saber levou nosso oculto amigo dentro da bagagem. Ansioso por conhecer a chamada cidade maravilhosa, Chubble me relatou que a única coisa realmente maravilhosa que encontrou fora Shelby. A tão bela moça que encantava seus olhos, os quais apenas ele podia enxergar. Shelby era como ele... enigmática e admiradora de queijo gorgonzola.
                Por dias os dois aproveitaram a cidade, divertindo-se em piqueniques improvisados em esquinas do lado leste e em corridas durante a madrugada contra as gélidas correntes de ar que trespassavam um calçadão qualquer. A história de amor entre ambos floresceu como um rápido devaneio infantil. Tanto que, no dia em que minha irmã voltou para casa, não apenas Chubble voltou na bagagem, como Shelby adentrou nossa casa também.
                E um lar, onde uma criatura enigmática já habitava, duplamente estranho se tornou. Nossos olhos humanos não enxergavam Shelby, mas qualquer um era capaz de sentir o grande espaço que ela ocupava. Talvez fosse seu ego inflável, ou a mobília da qual não conseguia se livrar. Tudo o que sei é que, não bastava o quanto ela me incomodasse, não pude dizer “não” quando Chubble pediu que eu permitisse que ela se mudasse. Também não pude dizer “sim”, e foi por isso que acabei dizendo “Aceita sanduíche de mortadela?”.
                Por dias a relação entre o casal se manteve estável. Gostavam de jogar cruzadas e de recitar poemas às quatro e quinze da manhã. Cobiçavam comprar um cachorro e dissecá-lo para abstrair conhecimento biológico. Juntos, sonhavam cada vez mais alto...
                Chubble nunca poderá dizer que não foi avisado. Disse a ele para que não se entregasse completamente a paixão. Mas o ingênuo ser fatalmente fez de Shelby o centro de suas atenções. Não sei se a garota se sentiu pressionada pelo excesso de elogios e carinho, ou se possuía alguma séria alergia a mortadela. Tudo o que sei é que Shelby fracassou em sua missão, e após doze dias, nove horas e trinta e sete minutos, não pôde mais sustentar seu disfarce. A pérfida individua era uma fugitiva. Procurada por traficar porquinhos da índia canhotos a laboratórios clandestinos. Não sei se era ave ou mamífero, mas era com certeza um ser traiçoeiro. Esmagou os sentimentos do pobre Chubble, e deixou nossa casa levando todo o estoque de gorgonzola.
                E por dias meu pobre amigo desabou-se em decepção. Não apenas os potes de sorvete, mas até mesmo os potes de feijão foram devorados durante sua extrema melancolia acompanhada pela fome. Tratava-se da primeira grande desilusão amorosa do pequeno Chubble, visto que nenhuma das outras duas e meia garotas de seu passado o cativara de tal maneira.
                Nos primeiros dias, desejou não apenas a morte de Shelby, mas também que ela fosse torturada por babuínos impiedosos num método diabólico e opressor. Após o estágio raivoso, desejou que pudesse mudar seu passado. Que pudesse voltar no tempo, e reviver as últimas semanas. Que tivesse percebido que havia muitas outras coisas maravilhosas no Rio além da enigmática Shelby (dizem, por exemplo, que há uma lata de lixo na esquina de uma das avenidas que é de uma simetria perfeita). Que não tivesse depositado toda a sua eufórica paixão em tão pouco tempo numa garota. Que tivesse agido de outra maneira...
Chubble queria reescrever o ocorrido.
Foram necessários alguns dias serenos e um pouco de chá de seticina para que meu nobre amigo entendesse que aquilo não era o fim. Ou talvez fosse, mas que todo fim nos abre uma porta para um novo começo. Nem tudo o que escrevemos ao longo da vida nos agrada, mas nem por isso podemos voltar e refazer nossas tolas ações. Erros não foram feitos para serem consertados, e sim para prevenir os outros erros do futuro.
A história de Shelby não é apenas ruim. É um lixo. É chata, enfadonha, e não deveria ser contada a ninguém... Mas nem por isso Chubble deve rejeitá-la. Afinal, qual mesmo a graça da vida se não tivermos algumas desilusões? Do mesmo modo que os textos de um escritor nunca de destacarão se não houver alguns textos ruins vez ou outra. Reescrever é para os tolos... os sábios deixam sua marca no texto de baixa qualidade, e dão um passo para o próximo volume, no qual sabiamente tentarão se superar.
A intenção de tal texto não é contar uma história. É falar sobre a Reescrita, essa tal jovem que tanto me atormenta. E para tal faço uso da sacção cognitiva, mostrando que até mesmo Chubble sabe que reescrever um texto é como lembrar-se de uma ex-namorada. Vocês podem até voltar a se dar bem, mas nada nunca será como da primeira vez.
Afinal, textos ruins são como desilusões amorosas... por mais que você queira esquecê-los, apagá-los ou consertá-los, você sabe que tais refletem parte de sua essência. São parte importante de seu passado. Retratam dias em que você agiu de maneira estúpida, mas que ainda assim agiu como bem queria. E talvez, por isso, você não deva tentar consertá-los...
Não sei nem se eu mesmo entendi o que quis dizer com esse texto. Seres humanos tem certa dificuldade pra entender certas metáforas... ou melhor... sacções cognitivas. Mas se os humanos não compreendem, talvez para os pequenos porquinhos da índia escritores faça algum sentido.
Nem sei se eu estava falando da Reescrita realmente. Talvez fosse um modo que encontrei de falar sobre outra coisa. E talvez Shelby não fosse traficante de verdade... Talvez... esse texto tenha ficado um tanto confuso... ou talvez confuso demais... Talvez eu não devesse tê-lo escrito...
Ou talvez... eu deva Reescrevê-lo...

Reescrita: O eterno dilema de Shelby

A história a seguir foi encontrada por meu amigo Chubble, escrita numa página rasgada de um diário a mercê do lixo hospitalar encontrado ao fundo do terreno de uma academia de artes cênicas. O papel continha digitais engorduradas, e um leve aroma de sorvete de limão. Contudo, Chubble insistiu que eu transferisse tais linhas para o público, na intenção não apenas de imortalizar sua mensagem, mas também na esperança de que algum humilde leitor conheça o significado de “tapulhice”.
(Os nomes do sorveteiro Rodrigues da Cunha e do garoto Bernardo Fernandes foram retirados da história para evitar maiores constrangimentos ou processos judiciais contra o paupérrimo escritor.)



Deleite. Quer palavra melhor do que essa? Que outras sílabas poderiam de forma tão singela representar o doce momento de contato entre o paladar e tal creme refinado? A cena intocável na qual meus clientes tão satisfatoriamente são invadidos pelo sabor gelado do melhor sorvete do bairro. Foi tal razão que me levara ao inscrever tais sete letras na lateral do carrinho. Quem disse que um mero vendedor de sorvetes não pode querer se expressar de forma poética? E é fato sabido por muitos que a palavra “Deleite” por si só soa mais poética do que certas estrofes que encontramos pela vida.
Mas deixemos deleites de lado, pois tal história não é sobre mim. Nem mesmo sobre os sorvetes que há anos vendia no mesmo ponto. Ambos são só circunstâncias que rodearam o jovem garoto. Bochechas com sardas, cachos castanhos, e língua bem solta aos oito de idade. Seu nome... nunca soube. Mas o descrevo como ninguém mais poderia. Pois só eu sei dos poderes que alcançou antes do fato. Só eu sei do mais importante... que não foi o fato... mas sim o efeito... (Não se preocupem, meus sorvetes não são tão complexos quanto o que costumo dizer por aí.)
Voltemos então ao primeiro dia, no qual os olhos esverdeados me fitaram de forma singela. Nunca gostei de crianças, mas sempre fingi adorá-las. Afinal, a maior parte do lucro de um sorveteiro vem da remota arte usada pelos jovens chamada “birra”.
Mas desacompanhado jazia o jovem garoto, me fitando como se desejasse apenas com os olhos me trucidar.
- Posso ajudá-lo? – indaguei, fazendo-o despertar do transe momentâneo.
- Ah, me desculpe... Estava pensando em qual dos sabores preciso escolher...
Fitei-o de sobrancelha erguida, e lhe entreguei o cardápio.
- Bom, as opções são muitas. Das mais variadas. Morango, creme, menta, chocolate... todos refinados com uma receita especial de família...
- Não são os sabores que importam, seu tapulho! – ele me repreendeu.
- Como é...? Tapulho?...
- Não estou em dúvida quanto aos sabores! Tenho oito anos e sou gordinho! É claro que quero o de chocolate! Mas o que eu quero não importa... preciso encontrar o Poder Secreto...
Ele desviou os olhos e voltou-se para o cardápio. Permaneci fitando-o com olhos confusos. As razões pelas quais nunca gostei de crianças pareciam dançar a minha frente.
- Você por acaso não teria a lista dos poderes em algum lugar, teria?
- Lista dos... garoto, eu não tenho tempo pra brincadeiras. Escolha logo o sabor que deseja.
- Ai, seu tapulho! Não conhece nem mesmo os poderes dos sorvetes que você vende?! É a história da sua família!
Soltei um suspiro pesaroso e contei até dez mentalmente, enquanto o insistente garoto permanecia me explicando:
- As receitas de sorvete da sua avó têm ingredientes mágicos especiais. Cada um dos sabores nos dá poderes diferentes, capazes de fazer coisas fantásticas acontecerem!
- Ok, garoto. A história é legal... mas de onde tirou essa ideia? – acabei cedendo uma risada.
- Não é só uma história. Sua avó era uma bruxa bondosa, que enfeitiçava os sorvetes para alegras as crianças. Minha mãe a conheceu há muitos anos, e contou tudo pra mim.
- E posso saber onde está sua mãe? Ela não devia deixar um garoto tão distraído sair por aí andando sozinho...
- Você ainda não acredita, né? Tô falando a verdade, moço! Seus sorvetes são mágicos! Minha mãe descobriu os poderes deles quando era criança, e me trouxe aqui uma vez quando eu era pequeno... Mas ninguém até hoje conseguiu encontrar o Poder Secreto... e eu vou achar...
- Poder Secreto? – rebati com indiferença - Garoto, acho que eu saberia se vendesse esse tipo de coisa no meu carrinho.
- Não se preocupe. Estou acostumado a pessoas não acreditarem em mim. Mas vou provar pra minha mãe que sou capaz de encontrar o Poder Secreto. Vou tomar todos os seus sabores de sorvete, até encontrá-lo... mesmo que isso gaste todo o tempo do mundo...
O pobre jovem claramente era perturbado, mas não recusaria vender mercadoria a um consumidor tão ávido por meus sorvetes. Foram necessários alguns minutos para que ele por fim optasse por groselha.
Deu-me o pagamento em moedas e partiu sem dizer coisa alguma.
Quase que no mesmo horário, no dia seguinte, retornou com o mesmíssimo olhar penetrante.
- E então? A groselha te deu algum poder fantástico?
- Você ainda não acredita em mim, não é mesmo, seu tapulho? – murmurou o jovem – Bom, infelizmente não é o Poder Secreto. Mas, assim como todos os outros, seu sorvete de groselha tem sim um poder especial. O poder da paixão. Funciona melhor do que poções do amor...
- Ora, essa! – exclamei em ironia – Não vá me dizer que o sorvete lhe arranjou uma namoradinha.
- Ainda sou muito novo pra isso, seu moço. Mas hoje na escola, durante o recreio, Bianca Fagundes deixou que eu sentasse do lado dela e segurou nas minhas mãos durante todo o tempo. Isso com certeza foi efeito do sorvete de groselha! É o poder da paixão!
- Magnífico. – ergui as sobrancelhas – Mas parece que não era esse o poder que procurava.
- Pois é... vou ter que experimentar mais um... escolho o de menta.
E o de menta a ele entreguei. Novamente, deu-me o pagamento em moedas e partiu sem dizer coisa alguma.
Passou-se o dia, passou-se a noite, e no mesmo horário matinal, surgiu o garoto a minha frente. Começava a gostar da brincadeira, e sorri ao lhe dizer:
- E então? Que poderes a menta lhe deu?
- Ultra velocidade! Você não faz ideia de como é um poder bacana! Ganhei de todos os meus colegas na aula de atletismo!
- Não me diga... quer dizer então que finalmente encontrou o que procurava?
- O quê? Não! Que tapulhice! Ser veloz é divertido, mas não chega nem perto do poder que eu realmente procuro!
- Mas garoto... o que lhe faz pensar que esse tal Poder Secreto realmente está entre os meus sorvetes?
- Minha mãe disse que estaria, e ela conheceu sua avó. Ela nunca esteve errada sobre nada, e não será a primeira vez.
- Bom... se insiste nessa ideia... qual sabor escolherá?
- Hmmm... o de limão, por favor.
E o de limão a ele entreguei. Outra vez, deu-me o pagamento em moedas e partiu sem dizer coisa alguma.
Mas eis que em tão próxima manhã surgia novamente, disposto a comprar um novo sabor.
- E então... o que me diz sobre o limão?
- Você não vai acreditar! Ele me deu o Poder da Inteligência! Aprendi toda a matéria da escola em apenas um dia, e fechei a prova de geografia! Os professores chegaram a me elogiar!
- Ora, essa... se eu soubesse que meus próprios sorvetes podiam me fornecer tamanha grandeza! – a cada vez, render-me a brincadeira do garoto parecia mais simplório e divertido – Mas e então? Era esse o poder que procurava?
- Ainda não. Vou ter que experimentar mais um.
E por dias tal rotina foi feita da mesma maneira. Passaram-se incontáveis manhãs, nas quais o garoto ao mesmo horário sempre surgia, contando-me sobre os poderes do último sabor escolhido e requerendo um sorvete diferente. Não podia negar... a cada dia, me afeiçoava pela criança. Nem mesmo me importava em entender o real significado de “tapulho”. Cheguei a temer que ele enfim dissesse ter encontrado o tão procurado sabor, e não mais me visitasse todas as manhãs.
       Juntos, passamos por quase todo o cardápio. Cereja, morango, chocolate, prestígio, goiaba, kiwi, flocos e até mesmo chiclete. E os poderes que o jovem dizia adquirir eram dos mais variados tipos... Energia Incessante, que o permitia manter-se acordado durante toda a noite. Vencedor dos Esportes, que o fazia invencível em qualquer jogo que se arriscasse a competir. Sorte Reluzente, na qual os pais decidiam lhe aumentar a mesada e na rua ele encontrava moedas perdidas. E vez ou outra, façanhas ainda mais ilógicas saíam de sua boca... ao afirmar que o de goiaba o havia feito flutuar, e que o de chiclete permitia que ele se teletransportasse.
                Mas por mais que os poderes lhe enchessem de alegria e boas histórias a contar, o jovem afirmava sempre estar ainda em busca do Poder Secreto, o qual, por mais que tentássemos, nunca conseguíamos acertar.
               - Os sabores de sorvete estão acabando. – adverti - Não restam muitos no cardápio...
               - Não se preocupe. Sinto que estamos chegando perto. Enfim... escolho o de amêndoas.
                Aquele foi o último sorvete que vendi. Jamais pude voltar a proporcionar qualquer tipo de deleite... pois a memória desta manhã se encontra para sempre no local mais impertinente de minhas lembranças.
               Acredito que o fator que me marcou profundamente não foi a tragédia em si. Não foi assistir os lábios do garoto se inchando com rapidez, enquanto sua garganta se fechava. Não foi tentar inutilmente salvá-lo, enquanto clamava por socorro até que uma ambulância aparecesse. Não foi nem mesmo receber mais tarde a notícia do Doutor Carlos, que duramente me disse que o pobre jovem possuía uma grave alergia a amêndoas.
              O que realmente me marcou foram as últimas palavras que pude ouvir dos lábios da criança. Caído na calçada, o garoto teve ainda tempo de dizer-me seus últimos devaneios, antes que sua garganta se fechasse.
               - Achei o Poder Secreto... Era esse... era esse o Poder...
            - Acalme-se! Acalme-se! Eu vou salvá-lo! Vai ficar tudo bem! – eu gritava em total desespero.
         - Não se preocupe. Era esse o poder que eu procurava. O poder do sorvete de amêndoas. Aquilo que eu quero há tanto tempo... – e foi então que seus lábios se movimentaram pela última vez – o poder de reencontrar minha mãe.

Relatos de um Sorveteiro Deleitado

eram nove e meia quando olhei para ela.
que era bela, qualquer um
poderia dizer.
mas o que me atraiu, na verdade,
não foi seu rosto, ou seu corpo
mas o jeito que virava a página
como se o livro fosse um amigo
cachos ruivos e mãos delicadas.
de tão fascinado, fiquei
de castigo.

e todos os dias, lá repetia.
Sentava
eu,
e aguardava.
Ansiava a chegada
da ruiva
que nem sempre aparecia,
mas consumia cada reles sonho
meu

passaram-se meses, passaram-se anos.
esperar se tornou rotina.
tentei descobrir seu nome.
até mesmo o telefone.
teu horário não sabia
e me fiz então de otário
lhe tentando
poesia,
mas não sabia
rima com ruiva.
e todo dia a decepção.
se a loba não vai, o lobo não uiva.

a ruiva nunca apareceu.
mesmo por anos eu tendo esperado.
mas o destino intercedeu,
um dia Judite sentou-se ao meu lado.
conversas, risadas, histórias e beijos.
foi com Judite que me casei.
perversa, malvada, se afogue no Tejo,
na imagem da ruiva eu rabisquei.

mas eis do tal momento, - que surpresa - no dia do casamento,
quando Judite subiu ao altar,
meus olhos fitaram a quarta fileira.
sentada ali pra me ver casar,
a ruiva piscava de forma certeira.

não gritei, não xinguei,

e nem mesmo deveria.
sussurrei um singelo “obrigado”.
se não fosse a ruiva vadia
eu nunca teria me casado.



A Ruiva que me ca(u)sou

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